
Os meninos e meninas do meu tempo, que viveram a infância no final dos anos 50 e começo dos anos 60, brincavam juntos e esquecidos da vida, inventavando brincadeiras e fabricavando seus próprios brinquedos. A liberdade plena do campo ou das ruas da periferia das cidades, os campinhos de futebol, os grandes terrenos baldios floridos de capitão-do-mato, os quintais de terra, enormes e cheios de árvores, era para nós a extensão de um imenso e belo playground natural.
As crianças maiores ensinavam as menores a brincar e até construir seus brinquedos. Os irmãos mais velhos sempre cuidavam dos mais novos e assim, nossos pais podiam se dedicar ao trabalho na roça ou na cidade, despreocupados, porque sabiam que passaríamos o dia todo envolvidos em atividades que nos prendiam a atenção o tempo inteiro. E sempre havia por perto uma “tia mocinha”, monitorando as brincadeiras dos pequenos. Eram tempos inocentes, não havia drogas e ninguém sabia o que era pedofilia. A vida era bem simples.
Para nós, bastava um pequeno pedaço de tábua e dois carretéis vazios da famosa linha de costura “Corrente” e logo surgia das nossas mãos habilidosas, um caminhãozinho, um automóvel ou uma jardineira e vruumm prá lá e vruumm prá cá o dia todo. Debaixo da sombra de uma parreira de uvas ou de uma grande árvore qualquer, sempre que a gente se reunia, logo nascia uma cidade, com suas ruas e avenidas, pontes e até túneis. Lembro que prá fazer os túneis, a gente pegava uma garrafa ou um litro vazio, cobria com um monte de terra úmida e socava bem firme compactando a terra. Depois girava a garrafa com cuidado e a retirava com jeito, para não desbarrancar. Pronto, estava feito o túnel!
No dia seguinte, desaparecia a cidade e no seu lugar surgiam as fazendinhas. Cada menino tinha a sua. Mas, bom mesmo, era quando a gente encontrava uma cerca de arame farpado cheia de ramas de buchas. Ali estava outra importante matéria prima para nossas invenções. As buchas verdes, grandes ou pequenas, logo ganhavam quatro gravetos ou palitos de fósforos espetados de um lado, e do lado oposto, dois na frente e um atrás, e pronto; num passe de mágica, viravam vaquinhas, boizinhos e bezerrinhos, que eram colocados nos currais construídos com cacos de telhas, tijolos e toquinhos. E quem tinha mais boizinhos no curral da fazendinha, era o fazendeiro mais rico da região!
Ainda debaixo da mesma sombra, as meninas brincavam de casinha, algumas até com lenços na cabeça, imitando suas mães. Num fogão feito com cacos de tijolos e telhas, faziam “papinhas” para suas bonecas de pano ou de porcelana. Na época do milho verde, elas transformavam as espigas de milho de cabelos dourados ou avermelhados em lindas bonecas, que eram enroladas em paninhos e ninadas no colo, ao som da inesquecível “nana nenê, que a cuca vem pegar...” Doces lembranças!
Latinhas de óleo de cozinha vazias, era como ouro em pó nas mãos dos meninos daqueles tempos. Com as latas retangulares e um barbante, num piscar de olhos a gente construía um trem enorme, amarrando as latas uma atrás da outra. E lá íamos nós, feito comandantes, pilotando nossos trens por estradas de ferro imaginárias, parando nas estações, apitando nas curvas, tentando cada um ao seu jeito, imitar o maquinista da Maria Fumaça!
Com as latinhas redondas de Leite Ninho ou aquelas de óleo de motor da Esso ou da Texaco, furávamos a tampa e os fundos, passando um fio de arame, emendando uma as outras, e pronto, estava feito um brinquedo parecido com um rolo compressor. E lá íamos nós, puxando aquela enorme fieira de latas girando como se fossem um monte de rodas.
Ainda com essas mesmas latas redondas de Neston e Leite Ninho, e uma cordinha, a gente fabricava outro brinquedo pré-histórico para as crianças de hoje: os famosos “pés-de-lata” e lá íamos nós, meninos e meninas, felizes da vida, andando com aquelas engenhocas sobre as calçadas e quintais ladrilhados, só pelo prazer de ouvir o barulho da coisa...plac, plac, plac....
Mas a nossa criatividade não parava por aí. Com duas ripas de madeira, até a altura de nossos ombros, dois pequenos toquinhos de sarrafos, alguns pregos e uma dúzia de marteladas, num instante a gente fabricava um par de pernas-de-pau e saía equilibrando e se exibindo para a criançada da vizinhança. Eram tempos felizes!
A pobreza material daqueles tempos não era um problema. Ao contrário, servia para estimular e aguçar nossa criatividade, nos levando ao improviso, na criação dos nossos próprios brinquedos e brincadeiras. Cada menino ou menina, tinha dentro de si um pouco de “Professor Pardal!” Era gratificante, quando a gente terminava de criar algo novo. A criançada juntava para ver de perto, e então, quando a coisa funcionava, era uma festa!
Ainda vou contar aqui como a gente fabricava nossos telefones, carrinhos de rolimãs e até foguetes, com cápsulas que desciam presas à paraquedas! Semana que vem tem mais. Até lá.