
Já faz algum tempo, contei aqui o causo do Traira, um pangaré que o meu amigo Lucindo Moreti, tem na sua fazenda lá nas Minas Gerais. Prá quem num sabe da história, um belo dia pescando numa lagoa, o Lucindo fisgou um trairão, e quando fez o galeio prá tirar o peixe d’água, o trairão caiu lá atrás no meio do mato e o anzolão acabou espetando no beiço do cavalo. Aí o jeito foi fazer uma “cirurgia” no beiço do bicho e como o serviço não ficou lá essas coisas, o coitado do animal ficou com a boca torta, e com isso, acabou ganhando o apelido de “Traíra”.
Até aí tudo bem. Acontece que dias desses, numa venda lá de Limeira D’Oeste, o Lucindo encontrou um vizinho de propriedade e conversa vai, conversa vem, ficou sabendo que o caboclo queria comprar um cavalo, bom de trote. E ele resolveu colocar o Traíra à venda. Afinal, o Traíra era um cavalo bem novo, tinha aí uns quatro anos, marchador e bom de serviço que só vendo.
Acertaram o negócio ali mesmo e no dia seguinte o Lucindo levou o cavalo até a fazenda do vizinho. O mineiro olhou o animal de cabo a rabo e por último foi dar uma olhada na boca, porque é pelos dentes que se sabe a idade do cavalo. Foi quando percebeu que o bicho além de ter a boca torta, ainda faltava um pedaço de beiço, deixando dois dentões bem à mostra.
--- Ô compadre Lucindo, o senhor me falou que o cavalo era bicharedo de bom, mas tou vendo aqui que falta um pedaço de beiço do bicho... o senhor me “tapiou”, me vendeu um cavalo aleijado!
--- Peraí, Compadre Belarmino, o “Traíra” num tem problema nenhum não, homem. Deixa de sê exigente, sô! O compadre quer um cavalo prá montar ou prá assobiar?