Em uma sala, ao lado de uma bela árvore de natal, ele (um cantor e pianista de fama internacional), sozinho e pensativo, repousa os dedos nas teclas de um piano e toca uma música que todos, certamente, conhecem ou já ouviram um dia. No mesmo instante, começam a passar cenas, de forma regressiva no tempo, mostrando passagens de sua carreira musical de grande sucesso. Ele aparece cantando em estádios lotados de fãs (já famoso), em bares e boates (bem mais jovem e ainda desconhecido), na escola (na época, um adolescente), até que surge uma criança de pijama, que desce correndo por uma escada e abre um sorriso ao ver sua mãe e sua avó em uma sala. Sua mãe aponta com um gesto de cabeça para um grande presente, embrulhado em papel enfeitado, no canto daquela sala.
Como toda criança, ansiosamente, apressa-se em rasgar o embrulho, revelando ser um piano. O menino, radiante e com um brilho nos olhos, repousa os dedos nas teclas do instrumento musical e toca duas notas quando, de repente, volta-se à cena original e a sequência daquelas notas são tocadas por ele, adulto, nos dias atuais, na mesma sala, no mesmo piano que ganhou há muitos anos, quando ainda era criança. Ele para de tocar e fecha, lentamente, a tampa do piano. Essa história, baseada em fatos reais e retratada em vídeo, termina com a seguinte frase, em inglês: “Some gifts are more than just a gift”, traduzindo, “Alguns presentes são mais do que apenas um presente”. Tudo não passou de lembranças em seu pensamento, que divagou no tempo, até aquele momento em que ele recebeu, de sua mãe, um presente que mudou a sua vida, justificando o sentido dessa frase final.
O vídeo é uma peça publicitária natalina, divulgado no dia 15 de novembro de 2018 e chamada “The Boy and The Piano” (em português, O Menino e o Piano), das lojas de departamento britânicas John Lewis & Partners. Ele, o personagem do comercial, é nada menos do que o cantor e pianista Elton John. O comercial resume, naquelas cenas, a carreira do astro, embalada por uma de suas canções mais famosas, “Your Song”.
Aquele pequeno presente despertou em Elton John o seu dom para a música, mudando sua vida para sempre. Ele acreditou em seu talento, investiu em sua carreira, tornando-se uma grande estrela internacional.
Todos têm um talento para ser desenvolvido, algo que nasce com o indivíduo, que vem de dentro, que surge da alma. Às vezes, basta um estímulo para a pessoa despertar sua aptidão, mas, quase sempre, demanda força de vontade e fé na própria capacidade. Quando trabalhamos o nosso dom, o fazemos com entusiasmo, com vontade e, dessa forma, não tarda para que os bons resultados comecem a aparecer. O reconhecimento é uma consequência natural desse processo.
Todo cantor famoso foi um dia uma pessoa anônima que percebeu o seu potencial para interpretar grandes canções. Um garotinho, filho de um relojoeiro de Cachoeira do Itapemirim, estado do Espírito Santo, pensou em ser arquiteto, caminhoneiro, aviador e médico. Mas, aos nove anos de idade e incentivado pela mãe, cantou pela primeira vez em um programa infantil em uma rádio daquela cidade.
Apresentou-se cantando o bolero “Amor y más amor”. Ficou em primeiro lugar e recebeu balas como prêmio. Ali nascia um grande cantor, o rei Roberto Carlos. Os grandes jogadores de futebol foram um dia crianças que corriam atrás de uma bola nos campinhos das cidades. Quantos viram o garotinho Edson jogar futebol em Três Corações – MG, sem nunca imaginar que se transformaria em Pelé, o rei do futebol. Aos quatro anos de idade, um menino de São Paulo-SP ganhou seu primeiro Kart, construído pelo seu pai. Foi o brinquedo mais importante da sua vida e que despertou sua paixão pelas corridas. Seu nome? Ayrton Senna da Silva. O resto da história desse grande piloto de Fórmula 1 é conhecido por todos.
A vocação pode ser despertada nas pessoas sem necessariamente transformá-las em famosos ou grandes celebridades, no entanto, tornando-as indispensáveis à sociedade. Destaca-se a figura do médico cirurgião que, com sua habilidade nata e precisão nas mãos, realiza cirurgias que salvam inúmeras vidas humanas. Aquele professor que, com sua excelente didática e sabedoria, ensina-nos mais do que uma disciplina, ajuda-nos em nossa formação integral como cidadão. O pedreiro, que desenvolve um trabalho essencial na construção civil, erguendo edificações e colaborando com o progresso do país. O advogado, o engenheiro, o bombeiro, o policial, o padre, o pastor, o arquiteto, o economista, o geólogo, enfim, todos os ofícios, que sempre revelam pessoas talentosas.
E por falar em pessoa talentosa, outro dia conversei com um grande amigo e paleoartista (profissional que com seus desenhos faz alusão à vida da Pré-História), Rodolfo Nogueira, que vem acumulando muito sucesso em sua carreira. Ele é considerado um dos melhores paleoartistas do Brasil (arrisco dizer do mundo), e é um bom exemplo de pessoa que acreditou em seu talento nato e desenvolveu seu trabalho. Suas gravuras apresentam um realismo tão marcante que parece que ele viajou no tempo e tirou fotografias coloridas e em alta resolução de dinossauros e outras criaturas que viveram na pré-história.
Por causa da qualidade do seu trabalho, colecionou prêmios nacionais e internacionais. Algumas de suas imagens viraram premiados selos utilizados pelos correios no país. Recentemente, ilustrou o livro “O Brasil dos dinossauros”, de autoria do renomado paleontólogo Prof. Dr. Luiz Eduardo Anelli (professor da Universidade de São Paulo). A obra foi laureada com o mais importante prêmio literário brasileiro – o Jabuti do ano de 2018, na categoria infanto-juvenil. Rodolfo é um exemplo clássico de profissional que acreditou em seu talento, conquistando o sucesso e tornando-se exemplo para que os jovens também acreditem e desenvolvam suas aptidões.
Ao conhecer uma determinada atividade profissional ou alguma expressão artística e seus olhos brilharem, como os do garotinho inglês quando ganhou de presente um piano, saiba que você encontrou uma das razões que confere mais sentido à vida - a sua vocação, o talento que emana da alma.
P.S.: caso o leitor queira assistir ao comercial no qual me inspirei para escrever esse artigo, basta acessar ao seguinte endereço na internet: https://www.youtube.com/watch?v=mNbSgMEZ_Tw
Recomendo também conhecer as obras do paleoartista Rodolfo Nogueira, citado no texto. Para ver as imagens de seu portfólio, basta acessar ao seguinte endereço na internet:
http://www.rodolfonogueira.daportfolio.com/