Sérgio Piva

Em defesa do animal

Em defesa do animal

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 7 anos

“Troque seu cachorro por uma criança pobre, sem parente, sem carinho, sem rango, sem cobre”, bradava Eduardo Dusek, no “Rock da Cachorra”, no século passado, quando o nome dele tinha um “s” apenas.

A música, composta por Léo Jaime, já naquela época,criticavaasupervalorizam (ou deveria dizer humanização) dos animais de estimação.Gostaria de saber o que pensam hoje autor e cantorcom a proliferação dos Pet shops e o aumento dos gastoscom animais de estimação.

Segundo reportagem da Revista Exame, divulgada em abril do ano passado, baseada em dados do IBGE, fornecidos pela Abinpet (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação), o Brasil tem por volta de 132,4 milhões de animais de estimação, dos quais 52,2 milhões são cachorros e 22,1 milhões são gatos, e o cuidado com a alimentação e a saúde desses bichinhos movimenta cerca de 17 bilhões de reais por ano, variando bastante de acordo com o tipo de animal escolhido: cães, gatos, peixes, roedores, aves ou répteis.

A Abinpet também divulgou que os gastos com produtos standard para cães são, em média, de R$ 302 mensais. Para gatos, o valor é de R$ 121,39. Entre as classes B e C (de 10 a 20 salários mínimos, e de quatro a 10 salários mínimos, respectivamente), o custo médio mensal para cães com produtos standard é de 3,2% e 7% da renda familiar. O custo médio mensal com peixes é de cerca de R$66,50. Eles são seguidos por roedores (R$ 55,50), répteis (R$ 14,90) e aves (7,80).

Sei que cada pessoa tem direito de gastaro próprio dinheiro da maneira que melhor lhe aprouver.No entanto, não é esta a questão principal. A dúvida suscitada é se o ser humano está valorizando mais os animais em razão de certa evolução humana, por tratar outras espécies com igualdade, ou se está desvalorizando sua própria, por muita decepção com o ser humano.

Dizemque a principal diferença entre os seres humanos e os animais é a capacidade intelectual desse último de raciocinar. Enquantoos animais estão limitados aos seus instintos fixos e inatos e a seus respectivos ambientes, o ser humano é a única espécie capaz de pensar.

Outra característicaque nos distingue dos animais irracionais é o andar sobre duas pernas. Esse, provavelmente, seja o traçomais marcante, no contexto atual, que determine essa diferença entre o ser humano e os outros animais.

E, já que estamos falando de racionalidade (ou irracionalidade), podemos lançar uma pergunta:seria normal permitir que filhos ou qualquer outro membro da família defecasse ou urinasse publicamente nas calçadas e vias públicas? Dependendo da resposta atribuída à indagação, conclui-se que, da mesma forma, não parece razoável que os animais de estimação também o façam, pois são considerados como “filhinhos” ou, no mínimo, membro efetivo da família, conforme demonstra o resultado de uma pesquisa feita com internautas, divulgada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), a qual concluiu que “61% dos donos ou os responsáveis pela manutenção de animal de estimação revelaram que consideram seus pets como um membro da família”. Um autêntico “Pet Family”.

Além do mais, a relação entre os animais de estimação e suas famílias, é matéria de projetos de lei no Congresso e assunto a ser definido juridicamente em várias casos em julgamento no Superior Tribunal de Justiça (STJ), podendo ainda haver a possibilidade de aplicar o código civil aos bichinhos, passando a ser tratados como “sujeitos de direitos despersonificados”, ou seja, ser vedado o seu tratamento como coisa. Resumindo, não pode urinar publicamente, quanto mais defecar na minha calçada.

Assim, se os defensores dos animais, especificamente os de estimação, pregam que devemos trata-los como trataríamos qualquer ser humano, é justo que o oposto também seja verdadeiro. Parece desumano, no estrito sentido da palavra, tratar certos animais muito melhor do que são tratados os seres humanos.

E, ainda, se a questão é igualdade de direitos, os pobres animais de estimação não deveriam estar encarcerados, com banhos de sol reservados ao passeios semanais ou em horários pré-estabelecidos diariamente (benefícioexclusivo dos cães), mas deveriam estar soltos na natureza, lugar dos bichos, ao invés de aprisionados em pequenos espaços concretados, sem terem cometido qualquer crime, servindo como brinquedinhos de estimação dos seus senhores, na maioria dos casos.

Se a coisa continuar evoluindo dessa forma,será necessário lançar um manifesto de combate à  “coisificação” do indivíduo e logo precisaremos criar uma associação de proteção e defesa do animal humano, mesmo que muitos deles, já nos dias de hoje,prefiram ter uma vida de cão, ainda queaprisionados, mas bem alimentados e com todo tipo de tratamento VIP possível.

Olhando por esse prisma, o problema realmente parece estar na desilusão do ser humano com osanimais da própria espécie. Portanto, talvez continue valendo o pedido escrito por Léo Jaime, cantado por Dusek: “Seja mais humano, seja menos canino, dê guarita pro cachorro, mas também dê pro menino, senão um dia desses você vai amanhecer latindo.”

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