
Desde que me conheço por gente, e lá se vão quase setenta janeiros no lombo, tenho ótimas e animadas lembranças do Natal e da famosa noite da virada. Vou carregar para sempre na retina as melhores e mais felizes imagens daqueles tempos mágicos. Quem tem mais de 60 couves na sacola, colhidas na horta da vida, sabe do que estou falando.
Mais duas semanas estaremos vivendo mais um Natal e espero que o deste ano seja muito bom para todo mundo, e uma semana depois, vamos vivenciar mais uma noite virada levantando brindes e dando vivas para que 2019 venha com céu de brigadeiro, carregado de boas e auspiciosas notícias e renovando nossas esperanças em dias melhores. Toc, toc, toc na madeira, três vezes.
Já contei aqui neste espaço sobre as lembranças dos Natais e Anos Novos da minha infância. Hoje a história é outra e bem diferente. Acionando as turbinas da nossa máquina do tempo, vamos mergulhar de volta aos velhos e bons tempos da nossa incrível e linda juventude, os anos dourados das lendárias e inesquecíveis décadas de sessenta e setenta. Vem comigo.
Lembro que o comércio de Fernandópolis começou abrir a noite no início da década de setenta. Naquela época a decoração era bem simples, com cordões de luzes coloridas formando um zigue-zague nas principais ruas do centro da cidade. A população gostou tanto da novidade que as ruas ficavam apinhadas de gente. E nas duas semanas que antecediam o Natal, a moçada aproveitava as noites para passear como nos bons tempos do “footing” dos anos sessenta. Eram noites mágicas, encantadas!
Outra boa recordação que trago bem gravada foi da véspera do Natal de 1975, no auge da minha mocidade. Lá se vão quarenta e três anos e lembro muito bem que os grupos de amigos se reuniam e a ceia era feita sempre na casa de alguém da turma, onde acontecia a tão esperada troca de presentes de “amigo secreto” e também havia troca de presentes entre os casais de namorados. Tempos felizes.
Esses encontros eram sempre animados com muita música, dança e algumas bebidinhas. Eram os tempos do yê-yê-yê e o crepúsculo da Jovem Guarda. Mesmo assim, ganhar o “LP de Natal” do Roberto Carlos de 1975, “Quiero Verte a Mi Lado”, com dez faixas cantadas em espanhol, era o sonho da maioria das mocinhas “caisadoras” daqueles tempos incríveis e maravilhosos. Contrariando a frase niilista que dizia que a gente era feliz e não sabia, sem medo de errar, hoje digo em alto e bom som que a gente era feliz e sabia sim senhor!
E nessas festinhas entre amigos, tudo era feito na base do “racha” e sempre muito bem organizado. Todo mundo colaborava como podia. Democraticamente as tarefas eram divididas. As meninas providenciavam os pratos da ceia, as frutas, o leite de onça e o famoso ponche. Os rapazes ficavam encarregados de providenciar o som e as bebidas: Martini, Cinzano, cuba-libre, vinho, e é claro, o champanhe... o famoso espumante Sidra Cerezer!
E depois da tal festinha, bem animados, lá íamos todos nós para a via-sacra, passando pelas outras festas de amigos e conhecidos, emendando a noite em memoráveis serestas, alguns de nós, “três coqueirinhos prá lá de Bagdá!”. E que saudade das memoráveis serenatas! Elas sempre eram esperadas pelas moçoilas, como momentos mágicos, de sonhos. E essas serestas eram pra lá de caprichadas, com o repertório mesclado por músicas românticas e natalinas escolhidas a dedo! O violonista Litério Grecco que o diga!
O Natal de 1975 foi muito marcante para mim. Naquela época eu morava em São Paulo e passava minhas férias em Fernandópolis. Naquele Natal fiquei com meus familiares até por volta de umas 9 da noite e depois fui encontrar com a namorada e com meu grupo de amigos. Logo depois da meia noite e da troca de presentes fui levar a namorada até sua casa, e claro, voltei para a gandaia. A festa não podia parar, claro!
Eu e meus amigos havíamos prometido fazer serenata para as namoradas e algumas amigas. Não é preciso dizer que nesse dia cheguei cedo lá em casa, lá pelas 5 da manhã. E claro, morto de cansado e com umas a mais na moleira, fui dormir. Obvio, desmaiei. Afinal, ninguém é de ferro!
E exatamente por conta disso, que aquele Natal foi marcante. Calma que eu explico. Nossa família, mais os tios, tias, primos e primas e a sobrinhada que morava aqui na cidade, havia combinado manter a tradição e passar o dia de Natal no sítio do nosso avô Ricieri Tarlau, lá pelas bandas de Pedranópolis. E o pessoal partiu aí pelas oito horas da manhã. Eu e meus dois irmãos mais novos, o Alemão (in memorian) e o Peninha (também chegaram cedo como eu) não conseguimos acordar e ficamos na mão, como se dizia antigamente, a ver navios. O povo foi e a gente ficou!
Aí para o nosso almoço de Natal, o jeito foi improvisar um macarrão, que na verdade virou um grude dos brabos. Fazer o que numa situação dessas? O jeito foi rir e rir muito. E aí um dizia, me passa a leitoa, outro retrucava dizendo que preferia uma coxa de perú, acompanhada de uma taça de champagne. Claro que não havia nada disso. Mas quer saber? Até que foi bem divertido aquele Natal. Inesquecível mesmo! Semana que vem tem mais. Até lá.