Várias vezes disse e escrevi acerca da importância do cinema em minha formação. Publiquei uma coluna sobre Clint Eastwood, quem considero o maior cineasta em atividade. No curso de História da UNIJALES, no qual leciono Filosofia, em conversa com o coordenador, professor Aden – grande pessoa e parceiro intelectual –, comentei meu desejo de ilustrar o trabalho com um filme. Escolheríamos algo muito significativo, com o propósito de aguçar o olhar dos graduandos. Além disso, faz parte das aulas a turma de Artes Visuais, portanto, desnecessário argumentar. Listamos várias películas. Não havia um critério específico.
A intencionalidade era escolher uma obra para sensibilizar sentidos e razão. De comum acordo – eu e o Aden – optamos por “Gran Torino” do imortal norte-americano. Essa produção é de 2008, lançada sob grande expectativa, própria de seus filmes. Assisti no cinema com a Jacqueline, morávamos em São Paulo ainda. Após a apresentação, recordo-me, comentara que considerara uma “obra menor” do genial diretor. Havia gostado, todavia, seu impacto inicial fora menor que em “Os Imperdoáveis” ou “Bird”, por exemplo. Depois de reassistí-la, mudei de opinião: o filme é do c.... Maravilhoso! Produção maior do velho Clint, em plena forma. Já o vi mais de trinta vezes. Não me canso de revê-lo. Há sempre uma descoberta.
A obra aborda a tolerância, o respeito ao outro. Fala da alteridade. Da importância de rever conceitos. Não se trata de mudar princípios. Esses devem nortear nossa vida. Mediante escolhas livres, conscientes e responsáveis. No entanto, às vezes nos equivocamos em identificar nossos algozes.
Permitimo-nos cegar por ideologias, supostas convicções, discursos calhordas. A película nos leva a repensar o conceito de família: não necessariamente devemos nos manter próximos a alguém pela consanguinidade. Família é quem escolhemos. Gostar exige critérios éticos e estéticos. Gostar incondicionalmente, nem com os próprios filhos. Também é opção, merecimento.
A existência, muitas vezes, nos mostra que aqueles quem deveríamos supostamente amar, nos são indiferentes, alheios, interesseiros, ávidos, gananciosos. Não nos querem bem. Movem-se por um querer específico, na maioria das situações ligadas a valores monetários. Portanto, nossa família são as pessoas que gostam de nós pelo que somos. Não pelo que temos. Aceitam-nos com defeitos e virtudes. Quando necessário nos apontam erros e nos cobram. Isso é sinceridade. Assim se constroem relações verdadeiras e amorosas. Tolerar é respeitar. Não é uma aceitação incondicional.
O velho Clint passa por tudo isso. Ensina e nos cativa. Nos leva a pensar e a sonhar. Como o grande cinema pede. Assistimos ao filme em plena concentração. Senti uma forte cumplicidade dos graduandos. Satisfeito pessoal e profissionalmente pela escolha. Fizemos um bom trabalho. Isso é gratificante de se constatar. Interrompemos a película para um rápido intervalo. A alegria e o
contentamento pelo acontecido eram visíveis e confirmados pelas palavras dos estudantes. Retomamos o trabalho, quero dizer, o filme. Ao final, tecemos – eu e o Aden –, alguns comentários e impressões acerca da película. Tenho certeza que foram, de certa forma descartáveis, na medida em que as imagens cumpriram sua tarefa. Por si só explicaram, ou melhor, sensibilizaram. Provando que o que se mostra é maior e mais rico do que aquilo que se diz.
A imprecisão das palavras nos impede de dizer. É mais deixar sentir. Foi isso: senti a satisfação e certo êxtase no olhar dos graduandos. As questões suscitadas pelo filme responder-se-ão a posteriori, em classe ou na solidão. Solidão que vivem muitos dos personagens de Clint Eastwood. Caminham nas sombras, trazendo a luz para todos. Sem pensar duas vezes em entregar a própria vida a uma causa que nietzschianamente julgam nobres. Como Josie Welles, o Cavaleiro Solitário, Charlie Parker e Walt Kowalski de Gran Torino.