André Marcelo

Escuta da vida no processo de hospitalização

Escuta da vida no processo de hospitalização

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Publicada há 9 anos

A inserção recente da psicologia no contexto hospitalar vem repleta de divergências conceituais. Psicologia Hospitalar, termo tipicamente brasileiro (em outros países é denominada Psicologia da Saúde), parece uma expressão imprópria, posto que sugere restringir-se ao ambiente hospitalar, o que não é adequado. 


A Psicologia Hospitalar (para manter a expressão brasileira), na verdade, aplica um conjunto de teorias, técnicas e reflexões que vão além desse ambiente – posto que estão sob seus cuidados a saúde do paciente mesmo fora do hospital, através de seus familiares – e compreende o trabalho do psicólogo como uma arquitetura também externa, articulada com outros mecanismos de cuidados da rede de saúde1; essa articulação, aliás, está prevista no Sistema Único de Saúde (SUS). Angerami-Camon (2003, p. 24)2 defende que “[...] o processo de

hospitalização deve ser entendido não apenas como um mero processo de institucionalização hospitalar, mas principalmente, como um conjunto de fatos que decorrem desse processo e sua implicação na vida do paciente”. 


Seguindo essa percepção, o paciente internado se depara com uma configuração complexa: a barreira que passa a existir entre ele e o mundo externo; seu corpo, entregue à equipe que o assiste, é esquadrinhado a fim de que ela suplante a doença (geralmente, para a equipe médica, o sujeito paciente é uma soma de órgãos que devem ser tratados ter suas funções restabelecidas,  e sintomas que devem ser eliminados); nem sempre o sujeito (doente) está ciente das causas de seu adoecimento – é como se sentisse diante do desconhecido e invisível. Tem razão o paciente de ser sentir alienado e inseguro vendo seu mundo pessoal interior desconsiderado no sentido de que não lhe é, muitas vezes, nem permitido externá-lo. 


Afinal, deve-se lembrar que ao paciente subjaz uma história de vida, temores e, não raro, a sensação de que não é o dono de seu próprio “eu”, dono de si como ser integral3. O paciente, para além das informações ausentes que dariam visibilidade aos procedimentos da equipe médica e a que nem sempre tem acesso, está o imprevisível dos processos de recuperação, o tempo de internação em que ele se acha afastado de seu convívio cotidiano. Tudo isso lhe traz um sentimento de desamparo, de insegurança, de apreensão quanto à exposição a procedimentos invasivos; só lhe resta um recurso: suportar “a doença, o sofrimento, o isolamento e a dependência absoluta em que se encontra”4. O paciente internado sente-se, dessa forma, despersonalizado, marcado pela carência de singularidade, Tratado como ser passivo, doente e identificado por um número em seu leito (ANGERAMI-CAMON, 2003), o paciente carece das ligações afetivas, de ouvir as vozes de seus familiares; fica apenas com suas memórias. 


Muitas vezes, a própria família se desincumbe de acompanhá-lo nas rotinas hospitalares, quer por falta de orientação, quer pelo fato de não ter aprendido a lidar com situações similares ou expressa temores de ter de lidar com o adoecimento (ARAGON, 2007). Um dos trabalhos do psicólogo hospitalar é a possibilidade da aplicação da psicologia nesse ambiente: intervir diretamente com o sujeito internado, atender familiares e cuidadores, participar da discussão multidisciplinar dos casos, acompanhar os encaminhamentos à rede de cuidados de saúde fora do ambiente hospitalar, capacitar equipes etc. 


Torres (2008) vê nessa atuação uma forma de construir a assistência ao paciente mesmo fora do hospital: o psicólogo busca o sujeito e, após sucessivos encontros, com ele elabora sua demanda de trabalho. Nesse sentido, ao psicólogo hospitalar dispõe de dois mecanismos importantes em seu trabalho: a escuta, através da qual ele se torna um ator social ao recompor as relações do sujeito (paciente) com a singularidade de sua vida (histórias, vínculos afetivos etc.), ao atuar positivamente para estabelecer a confiança na equipe e oferecer segurança diante das incertezas; e a dispensação de um acolhimento ao cuidador, como forma de sustentar a escuta e normalizar as relações afetivas do paciente. Dessa forma, no contexto hospitalar, a psicologia deve ter sua perspectiva voltada para um trabalho direcionado à saúde do paciente, quando explora a escuta e busca o acolhimento de familiares – duas marcas importantes quando se pensa na identificação do estado emocional do sujeito (paciente) e de seus cuidadores.


1 CHIATTONE, H. B. C. A significação da psicologia no contexto hospitalar. In: CAMON, V. A. (Org.). Psicologia da Saúde: um novo significado para a prática clínica. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2011.
2 ANGERAMI-CAMON, V. A. O psicólogo no hospital. In: ANGERAMI-CAMON, V. A. (Org). Psicologia Hospitalar: teoria e prática. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2003.
3 ARAGON, L. E. P. O impensável na clínica: virtualidades nos encontros clínicos. Porto Alegre: Sulina, 2007.
4 TORRES, A. O paciente em estado crítico. In: ROMANO, B. (Org.). Manual de psicologia clínica para hospitais. São Paulo: Casa do Psicólogo, p. 44, 2008.

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