Desde 1991, o Olimpo e os Céus estão em festa: receberam o mito do trompete. Todavia, hoje não estou a falar de morte. Ao contrário, volto-me à vida, sua celebração: faz noventa anos que nasceu um dos maiores pilares da música em todos os tempos: o trompetista Miles Davis. Sim, infelizmente ele nos deixou em 28 do 09 de 1991, aos sessenta e cinco anos. “Morrem cedo àqueles a quem os deuses amam”, dissera outra divindade.
Filho de uma professora e de um médico, aos treze anos de idade iniciara estudos de piano. No entanto, o pai lhe presenteara com um trompete. Arranjou-lhe aulas particulares com Elwood Buchanan. Em 1944, mudou-se para New York, a fim de conseguir uma bolsa de estudos no prestigioso Julliard Scholl. Começou a gravar no ano seguinte. Porém, sua formação pra valer se inicia ao tocar na banda de Charlie Parker. O Yarbird foi seu grande mestre. Tocou nesse mesmo ano com a banda de Billie Ekstine – outra lenda –; a balada aprendeu ouvindo o gênio Coleman Hawkins. Seu estilo já estava a se moldar. Em 1948, volta a gravar. Gerry Mulligan, Lee Konitz e Gil Evans estavam “na fita”. Era a época do bebop. Dois anos depois, se aproxima de Thelonius Monk, J.J.Johnson, Mitt Jackson, Art Blakey, Horace Silver, Charles Mingus, Kenny Clarke e Sonny Rollins. As divindades faziam nascer o “cool jazz”. Em 1955, forma O “Miles Davis Quintet” com John Coltrane.
O grupo se dissolve dois anos depois. Entre os anos 1957 e 1963, grava uma série com Gil Evans, além de Dave Brubeck. Das quais criaram uma peça de música erudita e frases de bossa nova. Em tempo: em 1959 gravou uma das maiores obras musicais de todos os tempos: “Kind of Blue”. Chamá-lo de revolução torna-se impreciso e insuficiente. É algo além, muito além daquilo que chamaríamos de “música genial”. Começa a lançar nomes como: Ron Carter, Herbie Hancock, hoje, lendas do jazz. Em 1964, no Verão, adiciona Wayne Shorter ao seu panteão.
Bem como o baterista Tony Willians. (Tive o privilégio de ver e ouvir ao vivo). Durante os anos sessenta e setenta, continuou gravando, inovando e, sobretudo, encantando. Em setembro de 1970, no funeral de Jimi Hendrix, em sua Seattle natal, Miles pretendia executar uma peça, no exato instante que o esquife fosse baixado. A família não permitiu. A música não perdoará essa heresia. Militante e ativista contra o racismo e a favor dos direitos humanos e civis, esteve no Brasil em 1974, durante a ditadura militar. Tocou de costas para o público. Em 1987 gravou “Tutu”. Um belo poema sonoro em homenagem ao grande lutador contra o asqueroso regime de segregação na África do Sul, o bispo Desmond Tutu.
No ano seguinte vem à luz “Amandla”, sob a influência de suas lutas. Viria ao Brasil em 1988, tocar no “Free Jazz Festival”. Comprei ingresso. Aguardava ansiosamente. Não veio. Adoeceu. Sua saúde estava debilitada. Foram anos e anos consumindo heroína. A mesma que nos tirou Bird. Nas décadas de 1980 e 1990, um período de mais inovações: incursões pela eletrificação do trompete.
Gravações com nomes do pop. Incursões pelo Soul e a música eletrônica. Fato que despertou a ira de Wynton Marsalis. Vociferando, bradava que: “não era o verdadeiro jazz”. Miles não se importou. Não fugiu as polêmicas. Continuou gravando e modernizando. Acima de tudo: revolucionando. Marsalis é um purista. Miles um gênio. A música de Marsalis foi esquecida. O velho Miles manteve a sua nova e inovadora. Eterna.