André Marcelo

A morte não tem mais poder

A morte não tem mais poder

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Publicada há 9 anos

Poucas pessoas encaram a morte como algo natural, mesmo aquelas que se apegam a alguma religião ou filosofia que trabalham o conceito de “vida após a morte”. Os pacientes com diagnóstico de doença incurável em seus estágios terminais, quando professam uma religião e possuem uma fé profunda que os liberta de conflitos e medos, parecem mais conformados com a morte, diferentemente dos céticos, que nada professam ou dizem não crer em nada. Isto dá a entender que, de uma forma ou outra, ninguém quer morrer, mesmo para aqueles que acreditam na vida após a morte. Kübler-Ross1 esclarece que isso se deve ao fato de que é impraticável para o inconsciente de um indivíduo imaginar o fim da vida na terra. 


A morte, precoce ou natural com a velhice, equivaleria a um castigo, a uma intervenção maligna que está além da compreensão humana: medo de violência e insegurança diante da iminência de guerras e desastres, sob cujo véu funesto se vive, podem estar nas raízes dessa concepção. Bauman2 considera que só o ser humano é capaz dessa consciência de morte inevitável, daí o pavor da morte. Com a preocupação de manter-se vivo, o ser humano lança mão de todos os recursos disponíveis: máquinas, tubos, válvulas, computadores que controlam o funcionamento dos órgãos e alertam quando alguma função vital entra em declínio, equipamentos eletrônicos e toda uma parafernália para transformar o momento da expectativa de morte em possibilidade de “manter as pessoas vivas”. Mas foi Foucault3 que inspirou a ideia de não “não fazer morrer, nem fazer viver, mas fazer sobreviver”. Para este autor, trata-se “de separar cada vez a vida orgânica da vida animal, o não humano do humano [...] a vida vegetal mantida” graças a “técnicas de reanimação da vida consciente” até um limite variável no tempo segundo “o progresso das tecnologias científicas e políticas”. É o que o autor chama de biopoder, que separa “o ser vivo e o ser que fala [...], o não homem e o homem: a sobrevivência”. 


Na verdade, é uma tentativa que resulta em processos de subjetivação da morte, lutando contra o medo, transformando o leito de agonia em leito de aceitação e resignação; é transformar toda uma cultura acerca da morte (com ritos, mitos sociais, narrativas) na perspectiva de tornar impensável a herança da cultura da morte, evitando o medo de considerá-la tão próxima de cada um. Kübler-Ross4 elabora cinco estágios do luto para quando, por exemplo, se descobre uma doença terminal ou diante do divórcio: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. É oportuno frisar que luto, nessa acepção, não se refere apenas à morte, mas a qualquer experiência traumática: o luto refere um processo de preenchimento de vazio interior causado pela perda pessoal catastrófica ou traumática, como a morte de um ente querido (amigo ou familiar), perda do emprego, de algo importante, diante do divórcio, do vício em drogas etc. 


No estágio da negação – mecanismo de defesa psíquica –, o indivíduo nega o problema, a doença ou mesmo a morte e procura não entrar em contato com a realidade ou nem mesmo falar sobre o assunto; na raiva, o indivíduo, ressentido, se revolta contra o mundo, sente-se injustiçado por ter de passar por esse momento; no estágio de barganha, o indivíduo tenta negociar consigo mesmo, dizendo-se que será alguém melhor quando se livrar da situação, promete uma vida diferente, faz promessas a Deus se obtiver a cura; na depressão, ele tende a se enclausurar, isolar-se, manifestar sentimento de impotência, melancolia, desinteresse e queixas; e, na aceitação, o indivíduo se resigna e, sem desespero, consegue enxergar a realidade e se prepara para enfrentar a perda que não conseguiu superar ou se queda em contemplação esperando o fim.


É oportuno esclarecer que tais estágios não se apresentam, invariavelmente, em sequência, mas é comum que um indivíduo passe por pelo menos dois deles. Qual é, então, o papel do psicólogo diante do processo de elaboração do luto de uma pessoa? Como pode contribuir para que a pessoa trabalhe o luto interiormente, levando-a à emancipação da perda e enfrentamento da frustração? 


O primeiro passo é avaliar a condição do indivíduo, do estágio em que se encontra para, a partir de então, singularizar um tratamento terapêutico e dar suporte possível à superação do luto. Se julgar conveniente, oferecer a psicoterapia (individual ou em grupo/família), para que possa ‘continuar vivendo’, se adapte à nova condição (diante de um divórcio, por exemplo) e reconstrua sentidos para a vida, reorganizando sua subjetividade para novas possibilidades da existência.


1 KÜBLER-ROSS. E. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p. 276.
2 BAUMAN, z. Medo líquido. Rio de Janeiro: Jorge zahar, 2008. p. 8-9.
3 FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes; 2005. p. 287

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