Por que há tantas questões sobre como criar um filho? As pessoas perderam a noção do que é uma criança. Se ela pergunta o que há na barriga de uma mulher grávida, podemos dizer apenas: um bebê. As famílias, porém, se cobram tanto que já querem explicar como o bebê entrou, como vai sair, o namoro do papai e da mamãe. Não se dá mais a resposta “quando você crescer, vai entender”, que em geral satisfaz as crianças. Outro sinal da dificuldade de lidar com a infância é que os pequenos têm agenda de adulto, cheia de cursos e responsabilidades.
Isso pode ter impacto no futuro? O problema é que a chance de brincar com a vida, que não foi aproveitada na infância, vira uma demanda no fim da adolescência. O número de adultos que levantam cedo para acordar o filho, de modo que ele não perca a hora das aulas na faculdade, é absurdo. Se você vai à secretaria de uma universidade no fim do semestre, há mais pais que alunos resolvendo todo tipo de pendência. Anos depois, os jovens chegam ao mercado de trabalho e muitas empresas têm dificuldade de lidar com esse perfil de recém-formado, o adulto que faz birra: só reclama, dá murro na mesa, sapateia.
Os pais de hoje se cobram em excesso?As mães se culpam muito. Elas tentam oferecer um tempo do qual não dispõem, por compromissos profissionais ou outros motivos. Nem sempre é possível controlar como passaram a noite, se acordaram dispostas, e aí elas forçam demais a barra em busca de uma perfeição que colocaram na cabeça mas não é alcançável.
E os homens? A preocupação é bem menor, nem se compara. O papel deles tem mudado na educação, mas o avanço ainda é pequeno, em geral restrito a alguns grandes centros. Vocês viram essa repercussão sobre o (ator e apresentador do canal pago GNT) Rodrigo Hilbert? Aparece na mídia que ele cozinha, constrói casa na árvore no quintal, e fica todo mundo assombrado. Isso mostra quanto nossa sociedade ainda é machista, que o homem, em regra, é de pouco envolvimento.
A dificuldade em dizer “não” permanece? Claro que sim ! E então como falar o não ?. Você olha nos olhos e diz: Nããão ! ”. Os pais hoje têm esse receio enorme de desagradar, um medo de perder o amor dos filhos. Sempre foi o oposto. Era o temor dos pequenos de perder o afeto dos mais velhos que permitia muitas vezes que fossem educados, deixando de fazer várias besteiras. A fragilidade dos laços afetivos hoje é uma coisa que nos assombra. O ser humano precisa de vínculos razoavelmente estáveis e duradouros, mas nada mais é assim entre nossos pares. Então, estamos jogando sobre os filhos essa expectativa. Com isso, o que temos visto, em geral, são os pais superobedientes. Loucura, não?
Rosely Sayão - Psicóloga da Revista Veja