Jacqueline Ruiz

Carta da Terra

Carta da Terra

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Publicada há 9 anos

“...Vocês devem ensinar as suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem as suas crianças o que ensinamos as nossas que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos...” 


(trecho da carta do Chefe dos Suquamish – conhecido como  Chefe Seattle – ao Chefe Branco de Washington – Presidente dos EUA, Franklin Pierce –  em 1854) 


Em tempos de crise(s) obrigatoriamente teremos sempre a quem culpar. Em relação à crise política a culpa é dos nossos mandatários, a crise energética é culpa do governo federal e a crise hídrica é do governo estadual. E pronto! É obvio que nossos governantes têm responsabilidade, e muita. Afinal, foram eleitos para cuidar da “coisa pública”; e convenhamos, estão cuidando muito mal. Em termos de coletividade eles são os responsáveis diretos por elaborar e fazer executar as políticas públicas para nossa sociedade. 


Culpar o governo sempre é muito conveniente e nos dá uma distância confortável, mas será que nos exime de assumirmos nossa responsabilidade na parte que nos cabe “desse latifúndio”? Se fossemos mais responsáveis em relação às ações de nossos mandatários acompanharíamos suas ações em todos os níveis do poder; muitas vezes sequer lembramos-nos do candidato em que votamos nas últimas eleições. Em nossas casas, quantas vezes deixamos aparelhos eletrônicos ligados ou lâmpadas acesas para ninguém? Será que nos preocupamos com o destino dos resíduos sólidos, comumente chamados de “lixo”? 


Simplesmente colocamos tudo junto misturado no cesto, dá trabalho separar o que pode ser reciclado e reaproveitado. Da quantidade de material descartável às sacolinhas plásticas do mercado quanta coisa desperdiçamos! Será que realmente necessitamos de tudo o que comprarmos? quanto tempo dura um banho? Ao lavar a louça, será que precisamos deixar a torneira aberta enquanto ensaboamos os utensílios? E pra lavar a roupa, será que a água precisa mesmo ir para o ralo? E depois abrimos a mangueira para lavar o chão. A impertinência dessas questões não é para aliviar a “culpa” dos nossos governantes – ao contrário, eles precisam ser responsabilizados e cobrados –, a intenção  é fazer com que cada um de nós assuma a parcela de responsabilidade que verdadeiramente nos cabe. Desde o século passado, mais exatamente em 1987, por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) através da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, e posteriormente em 1992 na Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, foi iniciada a elaboração de uma espécie de código de ética planetário voltado à sustentabilidade, à paz e à justiça socioeconômica. 


Finalmente, em 2000, no Palácio da Paz, em Haia, ocorreu o lançamento oficial da “Carta da Terra”.  O documento é uma declaração de princípios fundamentais para a construção de uma sociedade global no século XXI, que seja justa, sustentável e pacífica. Procura inspirar em todos os povos um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade compartilhada pelo bem-estar da família humana e do mundo em geral. É uma expressão de esperança e um chamado a contribuir para a criação de uma sociedade global num contexto crítico na História. A visão ética e inclusiva do documento reconhece que a proteção ambiental, os direitos humanos, o desenvolvimento humano equitativo e a paz são interdependentes e inseparáveis. Isto fornece uma nova base de pensamento sobre estes temas e a forma de abordá-los. 


O resultado é um conceito novo e mais amplo sobre o que constitui uma comunidade sustentável e o próprio desenvolvimento sustentável. Milhares de organizações pelo mundo deram aval à Iniciativa Carta da Terra, como se denomina a ação de implementar os princípios estabelecidos no documento em questão. Entre os extremos dos princípios estabelecidos na Carta da Terra – de um lado –, e a responsabilidade de todas as instâncias do poder público – de outro –, estamos todos nós –  cidadãos –, que temos o dever  e a responsabilidade de zelar por aquilo que pertence a todos, a nossa casa: o planeta Terra. 

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