Três coisas estão fora de moda: fugir, baile de debutante e noivado. Listadas em grau de “foreza” do maior para o menor grau. As três situações estão ligadas ao amor. Uma relacionada ao amor fraternal e as outras duas ao amor romântico. Comecemos pelo baile de debutante ou qualquer festa do tipo. Segundo pesquisa, “o baile de debutantes surgiu na Europa, quando as famílias nobres realizavam um grande baile para a sociedade da época, tendo como objetivo principal mostrar que sua filha estava se tornando uma mulher”.
Era um rito de passagem com o objetivo de demonstrar que a adolescente que completava quinze anos de idade se tornara “mulher”. A palavra debutante tem origem na língua francesa com o significado de estreia ou início. Diante dessas explicações, não dissertarei sobre os motivos pelos quais, na sociedade atual, esta comemoração está fora de moda, afora o fato de que se tratava de um baile para a sociedade, com pompas e circunstâncias, não uma festinha para familiares apenas, apesar das idiotices e breguices que, ainda, existem nesses “bailes”, as quais, na verdade, são feitas muito mais para realizar a vontade da mãe do que da filha. Os pais têm dessas coisas de tentar realizar o sonho próprio, não materializado, esperando que os filhos os completem na vida deles.
Querem que os herdeiros façam aquilo que não puderam, por diversos motivos, matriculando os filhos em aulas de piano, balé, judô, caratê, arco e flecha e não sei mais o que. Forçam os filhos a cumprirem atividades que a maioria não gosta ou não escolheu por vontade própria e, depois de adultos, jamais vão querer realiza-las novamente. A segunda coisa fora de moda é fugir. Aliás, isso não está fora de moda, está extinto. Os jovens ehoje nem imaginam o que seja isso. Antigamente, as mulheres fugiam da casa dos pais com o namorado quando o pai não autorizava o casamento. Como disse, antigamente, no tempo em que o arco-íris era preto e branco, quando os namorados que dormiam juntos tinham que casar. Se bem que pior do que dormir junto é ficar acordado. Apesar de ainda existir, acho o noivado fora de moda pelo que ele representava. Significava o compromisso para com o casamento, nessa fase o relacionamento estava consolidado. Nos dias de hoje nem o próprio casamento é sólido o bastante.
Outro fator que talvez tenha contribuído para o fim do noivado é o econômico. Se, atualmente, uma festa de casamento custa muito caro, promover outra de noivado não ajudaria em nada as finanças da nova família, ainda mais quando, contrariando o ditado antigo de que quem casa quer casa, hoje, querem casa (totalmente mobiliada), carro, plano de saúde, televisão moderna, viagens, matrícula na academia, visitas ao cabeleireiro, manicure, maquinas de lavar o que for possível e quase tudo aquilo que a tecnologia pode oferecer.
A não ser que a festa de noivado seja como a de muitas fotografias que me exibiram, realizada na cozinha da residência, onde era possível ver os adesivos da geladeira, uma toalha de crochê sobre o fogão e sobre ela um pequeno vaso branco de cerâmica, todo pintado com flores minúsculas vermelhas, rodeados por folhas verde claro e, dentro dele, três gérberas de plástico nas cores amarela, cor-de-rosa e vermelha com as extremidades amarelas. No centro do cômodo uma mesa de fórmica também vermelha parcialmente coberta por outra toalha branca de renda, delineando a área onde estavam distribuídos os “comes e bebes”. No centro um pequeno bolo com muito glacê branco e a sua volta algumas garrafas de dois litros de um refrigerante chamado “Para Todos”, que seriam acompanhados pelo pão com carne moída servido assim que os noivos trocarem alianças e os convidados cantassem parabéns.
Mesmo que os namorados não queiram (ou não possam) mais noivar e não precisem fugir, ainda assim, é necessário existir uma prova do desejo de união definitiva. O compromisso evolui à medida que a intimidade fica maior. Um clássico sinal de intimidade a sociedade atual ainda não conseguiu mudar: a flatulência. Soltar gases ao lado da pessoa amada é o maior grau de intimidade que se pode demonstrar, por mais asqueroso que possa parecer. Nem mesmo o sexo é capaz de revelar tão alta condição de intimidade. A primeira vez que os gases são exalados, ou seja, que o peido é sonorizado, paira um ar de constrangimento entre o casal. Há troca de olhares desconfiados, um fazer de conta que não aconteceu, uma risadinha no canto da boca ou até uma gargalhada. Você pode achar esse assunto nada romântico, nojento e até repugnante, mas não há sinal de maior intimidade entre um casal do que o peido.
Nesse momento é estabelecida a liberdade e confiança mútua, de que não vai contar isso para ninguém, além da prova incontestável de que o amor tudo sofre (em alguns casos mais, outros menos, dependendo dos odores), tudo crê (há momentos em que quase não dá para acreditar), tudo espera (um dia ainda vai acontecer com você), tudo suporta (quase tudo, às vezes é preciso sair da sala). Feliz Dia dos Namorados, com muitos, poucos ou nenhum presente e com intimidade ou sem ela.