A maioria das pessoas passou a entrar em contato, no início da década de 1980, com expressões como “câncer de gay”, “castigo de Deus” ou “peste de gay”. É que ainda não se conhecia o HIV, o agente etiológico e as formas de transmissão da síndrome da imunodeficiência adquirida. A enfermidade passou a simbolizar uma espécie de castigo divino a indivíduos cujo comportamento sexual não coadunava com dogmas cristãos ou com as orientações morais da sociedade.
O indivíduo infectado passou, dessa forma, a suportar tanto danos físicos provocados pelo HIV e doenças oportunistas, quanto o jugo de ser culpado pela infecção e o decorrente preconceito e rejeição social1. Todavia, ao longo dos anos, observaram-se mudanças no planejamento das ações preventivas aos portadores do HIV. Se, no início, esses indivíduos se enquadravam nos grupos de risco – e, daí, a estigmatização social – posteriormente. O estereótipo passou a compor um comportamento de risco, uma vez que a enfermidade não se limitava a determinados grupos sociais, mas se estendia aos demais membros sociais, desde que se expusessem ao risco da doença tornando-se vulneráveis a ela – o que dependeria de uma interação do indivíduo com as condições do meio social, cultural, político e econômico.
Passou-se a entender que o núcleo familiar seria a principal fonte de apoio aos soropositivos (assim denominados os indivíduos infectados pelo HIV), sem o qual a pessoa contaminada teria de absorver enormes prejuízos. Devido, porém, ao preconceito e ao isolamento que se impunham aos soropositivos, muitos deles ocultavam o diagnóstico, o que tornava o enfrentamento da infecção e a possibilidade de cura ou controle um processo solitário e de difícil alcance, porque o diagnóstico positivo representaria a rejeição pela família, o abandono à sua própria sorte e o isolamento2.
Esse sentimento se estendia também para os amigos e até aos profissionais de saúde – o que comprometia ainda mais a existência do indivíduo infectado pelo HIV. Nesse cenário, o maior inimigo a ser enfrentado são o preconceito, o medo, a angústia, que podem resultar em estresse e dificuldade em manter a saúde. Tais aflições alteram o comportamento social tanto do indivíduo quanto das pes
soas que permanentemente estão em contato com ele, para quem o diagnóstico de soropositivo representa uma sentença de morte, dele resultando apatia, depressão, desânimo, emotividade exacerbada, irritabilidade, raiva, ira, ansiedade, logo comprometendo seriamente a estabilidade psíquica, assim agravada3.
Todavia, a promoção da saúde não mais vislumbra a vida como ausência de doença, mas como bem-estar e qualidade de vida: a saúde perde aquele conceito de estado estático e passa a vislumbrar algo dinâmico, produzido socialmente – como prevenção de doenças, por meio de práticas sociais que concretizam esses conceitos de promoção do bem-estar e qualidade de vida, equacionando riscos de doenças, redução de riscos através de programas preventivos, capacitando indivíduos para orientação às comunidades no controle de determinantes da saúde.
A interação social dos soropositivos adquire, assim, caráter fundamental para a promoção da saúde, ao mesmo tempo em que desmistifica o preconceito; as ações de educação em saúde devem, pois,por meio do esclarecimento e informações, buscar romper tabus, dando suporte, apoio e assistência ao indivíduo contaminado, estendidos à sua família. O papel do profissional da saúde extrapola o diagnóstico, o tratamento: é, sobretudo, o de um educador que, além de desenvolver suas ações como profissional junto à população, se abre ao diálogo e à percepção das necessidades do grupo, em atendimento às expectativas individuais ou coletivas, no intuito de altera a antiga ótica perversa e estigmatizada em busca de uma visão transformadora com base na humanização, dignidade e bem-estar físico e emocional dos afetados pelo HIV.
1 LOPES, C. R. A epidemia mudou, e o mundo também. Revista RADIS (Reunião, Análise e Difusão de Informação sobre Saúde). 40. ed. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2005. p. 10-6.
2 CARVALHO, S. M. Vulnerabilidade masculina no contexto do HIV/ AIDS – contribuição para a enfermagem. 2004. Dissertação. Rio de Janeiro: UFERJ, 2004.
3 SEIDL, E. M. F.; TRÓCCOLI, B. T. Desenvolvimento de escala para avaliação do suporte social em HIV/AIDS. Psicol Teoria Pesq., v. 22, n. 3, p. 317-26, 2006