
Como diz o sábio Compadre Geraldo de Melo: “depois do couro da onça morta, esticado no varal, até vira-lata mija em cima”. Dia desses o povo tava reunido lá no galpão da fazenda do Compadre, todo mundo em volta da mesa de pranchão, jogando conversa fora e mandando goela abaixo umas talagadas de bagaceira pra “esquentar o frio”, foi quando o velho capataz Juca Lustroso, depois da terceira beiçada na “marvada”, começou contar mais um de seus causos...
-- Gente, eu me alembro como se fosse onti... Eu já morava aqui no Taboado, na fazenda do Dotô Gerardo - eh, home bão... ieu tomava conta da fazenda toda. Certa veiz, cumeçamodar farta de umas galinhas, despois um leitão e, mais tarde, dois bizerros. Cumecei a achá rasto de onça. Uma noite, sumiu o pudrinho da égua Pantanera de istimação do Dotô Gerardo. Ele ficôbrabo que nem uma caninana e me falô: “Juca, dá um jeito de achá essa onça mardita e acabá cum a raça dela. Ela já cabô cum a minha pacência”.
-- Carreguei uma purção de cartucho calibre 20, chumbo grosso, porva diamante, azeitei a “Charrasqueta” dois cano, chamei dois cachorro bão de faro e saí numa tarde de domingo pra caçá a marvada. Andemo umas duas hora, sem sinar da bicha. De arrepente, eu tavadibaxo de um pé de jinipapobebeno uma pinga, quando os dois cachorrofarejaro o ar, alevantaro as orêia e disimbestaram no meio do mato no rumo duma capuera ali perto.
-- Poco tempo despois, eu iscutei latidos, isturro e ganido de cachorro. Im siguida outro isturro, um bufado e ganido de cachorro sendo istripado. Num demorô muito, e a tinhosa saiu da capuera correno pro meu lado, quebrando mato que nem trator de istera. Levei a ispingarda no ombro, armei os dois cano, apontei pra cabeça dela. Deu pra ver até o branco dos zóios dela. Inquadrei ela na arça e na massa da mira, dexei ela chegá perto e puxei os dois pinguelo... Ele fez uma pausa, tomou mais uma talagada e acendeu o pito. Ansioso, Zé Lourenço, um dos peões da fazenda, perguntou:
-- Acertou a mardita? Ele bateu a unha do polegar na ponta do palheiro e continuou: -- Qui nada,Zé Lorenço; ispuleta véia, porva derrancada, os tiros num saiu e a onça veio correno pro meu lado, urrando anssim. Deu um berro tremendo, imitando a onça, e continuou:
-- Eu levei a mão na cintura, ranquei o 38, apoiei um braço no outro, apontei pra cabeça dela, deixei ela chegá perto e puxei o pinguelo... Ele fez nova pausa para cuspir um pedaço de fumo que tinha ficado preso em sua língua. E eu, ansioso, fiz uma pergunta absurda:
-- Pelo amor de Deus, Sô Juca Lustroso, conta logo se a onça comeu o senhor...
-- Puxei o pinguelo seis veiz, e o revorve num tinha bala. A onça já pertico de mim urrou anssim. Juca deu outro urro ainda maior que o primeiro, quase me derrubando do tamborete. E continuou:
-- Levei a mão na cintura, puxei a pexera. E a pintadona, que já tava a uns deizpasso de mim, dessa veiz urrou forte anssim. E o velho Juca Lustroso caprichou. Deu um berro prolongado, as veias do seu pescoço se dilataram, seus olhos se esbugalharam, foi ficando roxo e eu achei que ele ter um troço. De repente, ele parou de contar a história, deu uns dois passos para trás e falou sem graça:
-- Me borrei todo! Silêncio total. Constrangimento geral. Eu, querendo quebrar o gelo, falei:
-- Ora, não se preocupe, Juca, isso não é vergonha não. Se uma onça dessas viesse correndo e bufando prá cima de mim, eu também me borrava todo... E ele respondeu, todo sem jeito:
-- Não, não, eu num me borrei lá não. Eu me borrei foi aqui, agorica, remedando a onça...