Claudinei Cabre

'...E viva os noivos'

'...E viva os noivos'

Por Claudinei Cabreira - Histórias do tempo do Botinão

Por Claudinei Cabreira - Histórias do tempo do Botinão

Publicada há 9 anos



Junho chegou e com ele o “dia dos namorados”, as quermesses e as festas juninas estão de volta para “esquentar” o frio atípico deste fim de outono. No começo desta semana, conversando animadamente com meu amigo Wilson Granella, ele comentava a lembrança desta coluna sobre as tradições dasfestas juninas de antigamente. Como eu, Granella também lamentou que muito dessa cultura popular foi se perdendo com o passar do tempo. Hoje as festas juninas se resumem a uma mistureba de coisas que nada tem a ver com o que eram essas festanças no passado. É uma pena. 


Mas já que é assim, volto ao assunto. Será que a moçadinha de agora tem uma ideia do que era isso? E o romantismo dos correios elegantes, então? Longe de bancar o crítico azedo, mas hoje o povo se junta nessas festas para comer frango assado, batata frita e tomar cerveja. Tomar quentão, comer pipoca ou amendoim torrado, virou coisa do passado. Os correios elegantes deram lugar aos zap-zaps enviados pelo celular, facilmente identificáveis. O bom do correio elegante era o segredo que criava o clima de curiosidade e o mistério que envolvia o autor, que mandava versinhos caprichados e sempre usava um amigo ou até mesmo o garçom da festa para mandá-lo às escondidas para a “pretendida”. 


E será que algum dia você foi parar atrás das grades da “cadeia do amor” por ordem de algum amigo travesso ou de uma paquera não correspondida? Eram tempos divertidos. As grandiosas quermesses ao lado da Igreja Matriz eram o máximo. Ficavam apinhadas de tanta gente bonita e animada. Corria o ano de 1969 e a turma da quarta série ginasial do antigo Colégio Estadual de Fernandópolis, hoje “Afonso Cáfaro”, resolveu organizar uma grande festa junina no pátio da escola. Naquele tempo a turma do ginásio comemorava formatura no final

do curso, então, esse foi o jeito que nós encontramos para arrecadar algum dinheiro para a nossa festa de final de ano. O primeiro passo foi falar com a diretora Yuri Narita. Como aquela era a primeira festa do gênero na escola, então, era preciso caprichar e fazer algo que ficasse na história. Até porque, naqueles tempos, a competição entre as escolas da cidade era uma coisa muito séria. Fosse qual fosse o evento, todo mundo dava o sangue para fazer o melhor. Era preciso mobilizar a escola inteira, “fazer bonito” e fazer bem feito. Autorização concedida, começamos montar a festa. Local não era problema, pois além do pátio da escola onde havia um mini palco, havia ainda a quadra de esportes. 


Arrumamosbambu, folhas de coqueiro e começamos enfeitar o espaço com aquelas coloridas bandeirolas de papel crepom. Logo teve um grupo que arrumou lenha para a grande fogueira. Enquanto uma turma ensaiava a dança da quadrilha do “Feijão Queimado”, outro grupo ensaiava as falas do casamento caipira. Sei lá por que cargas d’água,acabei sendo escolhido como noivo e a noiva era minha amiga de classe, a Roseli Badaró. Os padrinhos e parentes dos noivos, claro, eram nossos amigos da classe. E o elenco foi se formando; um era o padre, outro era o sa

cristão, tinha o juiz de paz, o delegado, as testemunhas do casório, os amigos do noivo e da noiva e o coronel, dono da fazenda onde acontecia o casamento, era o Tolentino. Prá variar, os pombinhos haviam fugido e aí como mandava o figurino, tinha que casar “na marra”.  Antigamente os noivos fugiam e depois de alguns dias de sumiço, apareciam com a cara mais lambida desse mundo, prontos para casar. Os irmãos da noiva querendo “carçá a oreia do disgramado” do noivo safado e sem vergonha. E se o pai da noiva fosse um caboclo sistemático, o noivo casava com uma espingarda apontada na fuça! O noivo tremendo mais que vara verde, a noivinha assanhadamas também muito assustada com aquele povaréu, tinha lá os seus tremeliques e desmaiava no altar. 


Aí todo mundo acudia, abanando a coitada, que voltava do desmaio, virava os olhos, dava um suspiro e desmaiava de novo. Era um furdunço danado! Antes do casório, havia o discurso do coronel, onde o Tolentinocaprichou e apareceu todo paramentado de paletó de linho branco, chapelão panamá, bota de cano longo e uma garrucha de dois canos na cinta, subia numa cadeira, se ajeitava, dava uma pigarreada e soltava o palavrório: “pela primeira vez que eu falo trepado num casamento...” e ia por ai afora.


Depois que o padre fazia os noivos repetirem os votos de casamento, me lembro de uma das falas do noivo, que jurava quase gaguejando: “nóis promete seu Vigário, que vamo vivê sempre bem ajuntinho. Ela acerca di mim e eu acerca dela!” Terminada a cerimônia do casório com o tradicional viva aos noivos, a noivinha jogava o ramalhete de flores de São João, disputado a tapas e puxões de cabelos pelas moças encalhadas. Os noivos deixavam o local debaixo de uma chuva de arroz e seguiam numa carroça enfeitada com folhas de coqueiro e bandeirolas. Logo atrás outras carroças com os parentes, outra com as autoridades e outras com os convidados, desfilando pelas ruas do centro da cidade, soltando foguetes. Era um acontecimento! Quando a caravana chegava de volta à escola, a festa já havia começado, então era aquele alvoroço, todo mundo parava, querendo ver a dança da famosa  Valsa dos Noivos. Logo depois, acontecia a dança da quadrilha do “feijão queimado” e a quermesse ficava ainda mais animada. 


Ao som das músicas típicas do cancioneiro junino, os correios elegantes, os leilões de prendas e assados, movimentavam o povo até por volta de meia noite. Aquilo sim era uma baita festa junina, bem caipira mesmo. Bons e inesquecíveis tempos. Semana que vem tem mais. Até lá.

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