André Marcelo

Ambiente e relações de trabalho

Ambiente e relações de trabalho

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Publicada há 9 anos

Ambiente, em sentido amplo, é o espaço que envolve as organizações, seu universo externo, extensivo à sociedade, onde estão presentes outras organizações e grupos sociais. Dele provêm recursos materiais e humanos; quando esse ambiente sofre alterações, as organizações se deixam influenciar pelas novas condições ambientais1, ou seja, o ambiente mobiliza fatores externos e internos a que as organizações se devem acomodar. quando essa adaptação é obtida e os objetivos são alcançados, a empresa torna-se eficaz e tem condições de sobreviver e crescer. 


Assim, o ambiente de uma organização, como de qualquer entidade social, conjuga condições e influências externas que afetam sua vida e seu desenvolvimento. Além desse ambiente configurado como amplo, existe um espaço interno onde ocorrem múltiplas relações de trabalho, em que os participantes organizacionais firmam relações intra e interpessoais e estabelecem um código de normas que regem e definem essas relações. No ambiente interno, o meio relaciona-se ao mais imediato e próximo, onde as organizações trabalham e mantêm seu domínio (poder e dependência). 


Esse espaço interno se caracteriza, dessa forma, como o cenário de operações de uma organização e inclui o espaço físico e o conjunto de proprietários (administradores ou provedores e supervisores), empregados e a cultura organizacional, constitutivos dos elementos intrínsecos à organização. Dessa forma, o clima físico tende a refletir o ambiente interno organizacional, onde ocorrem as relações interpessoais: à proporção que as organizações têm suas expectativas acerca de seus participantes (em qualquer nível hierárquico) quanto às suas aptidões e potencial de desenvolvimento, os participantes também têm suas expectativas em relação às organizações. Essa relação psicológica entre organização e empregados2, a que os psicólogos convencionam chamar de contrato psicológico, quando bem equilibrada, reforça a expectação mútua, baseada na confiança recíproca e equidade. 


Portanto, o contrato psicológico, nas relações intra e interpessoais, efetiva a vivência interpessoal dentro de um ambiente adequado de trabalho. Seligmann-Silva3 esclarece o que representa um ambiente adequado de trabalho, promotor de bem-estar físico e mental, incluindo diversas percepções individuais acerca do que seja ambiente propício de trabalho: trabalho protegido, ambiente tranquilo, baixo nível de ruídos, concentração; ou pessoas se deslocando com frequência, aplicando, com destreza, músculos e mentes para execução das tarefas e se comprazendo ao perceberem o próprio vigor e habilidades. Em qualquer caso, deve-se estabelecer uma “economia psicossomática” que atue favoravelmente e promove saúde. Esta autora afirma que o ambiente pode intervir positivamente sobre os trabalhadores quando existe harmonia “com as peculiaridades da economia psicossomática individual”. Mas o trabalho pode gerar distúrbios no trabalhador, quando este se submete às exigências de tarefas contrárias à sua organização funcional,comprometendo-a. 


Para Dejours4, o meio ambiente pode ser “fator desencadeante ou revelador de síndromes de doenças, cujas origens não são mais imputadas ao trabalho, mas a certas condições [...] relacionadas a fraquezas inerentes ao sujeito e preexistentes ao aparecimento de doenças”, ou seja, o trabalhador pode ser suscetível, orgânica e mentalmente, a desenvolver patologias não relacionadas ao trabalho ou ao meio, mas este pode contribuir para a eclosão ou evolução daquelas justamente porque o sujeito manifesta tendências (fraquezas e condições) que o predispõem a doenças. Para Dejours5, o trabalho ocupa um espaço central na vida do sujeito, e a relação subjetiva aplicada em situação de trabalho costuma “colonizar” o espaço fora dele, na família e nas relações sociais como um todo, isto é, nas relações interpessoais do indivíduo.Assim, em não havendo boas condições e qualidade de vida no trabalho, não se pode falar em “qualidade e produtividade de produtos e serviços”.


As organizações, vistas como sistemas abertos e adaptáveis ao ambiente externo, harmoniosas com as peculiaridades dos seus trabalhadores e coerentes com suas proposições, devem estar preparadas para absorver cada situação criada por essa dinâmica ambiental e social e dar respostas às contingências ambientais; devem, pois,preparar-se para absorver os impactos exercidos pelo meio e pelas configurações dos trabalhadores. Por outro lado, elas próprias também produzem influências sobre o ambiente, uma vez que ambos estão diretamente numa relação de interdependência e reciprocidade.


1 Silva R. Teoria da administração. São Paulo: Pioneira Thomson Learning; 2001. 523p.

Schein EH. Cultura organizacional e liderança. Brandão AB, tradutor. São Paulo: Atlas; 2009. 414p.

3 Seligmann-Silva E. Trabalho e desgaste mental – o direito de ser dono de si mesmo. São Paulo: Cortez; 2011. p. 80.622 p.

4 Dejours JC, Abdoucheli E. Itinerário teórico em psicopatologia do trabalho. In: Dejours JC, Abdouchely E, Jayet C. Psicodinâmica do trabalho. Betiol MIS et al., coordenadores. 1a ed.São Paulo: Atlas; 2011b. p. 47.

Dejours JC, Abdoucheli E. Desejo ou motivação? A interrogação psicanalítica sobre o trabalho. Motta FCP, tradutor. In: Dejours JC, Abdouchely E, Jayet C. Psicodinâmica do trabalho. Betiol MIS et al., coordenadores. 1a ed.São Paulo: Atlas; 2011a. p. 33-43


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