Claudinei Cabre

Lembra da Geada Negra de 75?

Lembra da Geada Negra de 75?

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 9 anos



O assunto dominante nas rodinhas de amigos nesta semana foi o frio intenso de terça e quarta-feira, que para muitos, principalmente os mais jovens, foi o pior de todos os tempos. Conversei com muita gente e a conclusão que eu e alguns amigos chegamos, foi que o frio mais intenso que atingiu a cidade, toda a região e o Estado de São Paulo, foi a famosa geada negra, ocorrida há 41 anos, na madrugada de 18 de julho de 1.975.


Naquela época, então com 23 anos de idade, eu morava em São Paulo e confesso que não tenho um pingo de saudade daquele julho fatídico. Por duas noites seguidas a temperatura foi abaixo de zero. Mesmo para os paulistanos, acostumados com o frio, aquilo foi um absurdo. Para o caipira aqui, acostumado ao calorão da nossa região, foi uma tragédia. Tomar banho era mais do que complicado, era preciso muita coragem.


Naqueles dias, ir bem cedinho para o trabalho, sob um vento cortante de tão gelado, era um desafio e tanto. No final da tarde, o jeito para esquentar um pouco, era tomar algumas doses de conhaque. Na horade dormir, o bicho pegava de novo. Lembro que era também muito difícil, mesmo muito bem agasalhado e enfiado embaixo de uma montanha de cobertores, pegar no sono parecia uma missão impossível porque parecia que os ossos doíam.


Não me esqueço que quando ia para o trabalho, colocava uma camiseta de gola olímpica, uma blusa de veludo, a camisa, um pulôver, um jaquetão de couro, luvas, cachecol, boné com tapa ouvidos, meião de lã nas pernas e calça de veludo. Saia pela rua “encarangado”, batendo queixo esoltando fumaça pela boca parecendo um dragão. Até hoje, para mim, foi o pior de todos os 63 invernos que já vivi. Quem é do meu tempo, sabe do que estou falando.


Meses depois, visitando minha família, notei que os grandes coqueiros ornamentais que havia no jardim da nossa casa, tinham sido cortados. Meus pais me disseram que tiveram que cortar, porque a geada torrou as folhas e caules daquelas plantas adultas e tão resistentes. O mesmo ocorreu com os cafezais da região. Aquela geada negra foi o tiro de misericórdia na mais importante fonte da economia local, liquidando com as imensas lavouras de café. A safra de 76 foi totalmente perdida e os cafeicultores amargaram enormes prejuízos. Muita gente foi à bancarrota. Nunca mais a cafeicultura regional se recuperou daquele desastre.


Os moços de hoje estão reclamando muito do frio, até com certa dose de razão, mas não fazem ideia do que foi o inverno de 1.975. Prá começo de conversa, a grande maioria da população daqueles tempos era muito pobre e tinha roupas de frio muito simples, quando muito blusas de lã ou uma japona de lã. Jaquetas de couro, jaquetões, luvas, cachecol e mantô eram artigos de luxo, coisa de gente granfina, coisas do povo da alta sociedade.


Naquela época, a maioria das casas não tinha forro ou laje, então para esquentar um pouco, só mesmo pegando um rabo de fogão, ficando de cócoras, perto ou encima do fogão à lenha que na maioria das casas ficava na cozinha. E todo mundo ali empoleirava procurandoesquentar as mãos postadas sobre o calor do fogo, tomando café de canequinha ou chocolate bem quente. Eram tempos difíceis.

Para piorar a situação um pouco mais, na maioria das residências, daqueles tempos, os banheiros ficavam do lado de fora das casas e o banho era tomado no famoso chuveiro “Tiradentes”. Para esquentar a água, era preciso ferver num tambor colocado sobre um fogareiro improvisado feito com uma lata de 20 litros do famoso Querosene Jacaré, alimentado pelo fogo de pó de serra. Naquela época era comum famílias numerosas como a minha, então a hora do banho naqueles dias gelados era uma verdadeira operação de guerra. Enfim, sobrevivemos. Semana que vem tem mais. Até lá.

últimas