Jacqueline Ruiz

A Meneceu * (Ou, aos meus filhos)

A Meneceu * (Ou, aos meus filhos)

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Publicada há 9 anos

Certo dia, minha filha chegou da escola possessa. Foi-lhe solicitado que elaborasse o seu Projeto de Vida, ao que ela respondeu, sem titubear: Ser Feliz! Diante de sua resposta houve a seguinte argumentação: isso não pode, precisamos que você pense a respeito de seu futuro, de sua profissão. Obstinadamente, ela recusava-se a pautar seu futuro apenas pela escolha profissional, e, insistentemente a escola negava-lhe essa prerrogativa; daí sua indignação. 


Argumentei que isso fazia parte do programa, mas que ela poderia justificar sua escolha – Ser Feliz – como parte de seu projeto de vida, sim. E, como quem sai aos seus não degenera, ela permanece fiel a esse projeto. Creio que na escola poucos a compreendem e muitos, aliás, acreditam (sem o confessar publicamente) que ela é mais uma arrogantezinha que dá imenso trabalho. Pois é, ela Pensa! Para atender aos valores contemporâneos, o jovem precisa ser inserido no mercado de trabalho, para isso é correto haver certo planejamento, mas, daí reduzi-lo à escolha de uma profissão é limitar muito sua capacidade prendendo-o, pura e simplesmente, aos valores vigentes e à lógica capitalista. 


Tema recorrente em nossas vidas “essa tal Felicidade” está um tanto vulgarizada. Afinal, a contemporaneidade banalizou o conceito reduzindo-o a um “selfie” sorridente postado no Facebook. É claro que agregado a roupas, sapatos, perfumes, maquiagens e por ai afora, preferencialmente, todos de grife, divertindo-se em baladas e festas. Os comerciais nos revelam casas e carros bonitos, pessoas lindas, magras e bem sucedidas ou com famílias muito bem estruturadas, para deleite dos patrocinadores. Por isso cada vez mais somos impelidos para o TER (tênis, eletrodomésticos roupas, carros...) e para o ESTAR (beleza instantânea – cirurgias bariátricas, plásticas, lipoaspiração, botox...). Tudo conseguido breve e rapidamente para, logo em seguida, ser descartado pela nova moda do momento. Amizades e amores, imediatos e descartáveis também. quantos seguidores temos em nossos perfis nas redes sociais, todos eles nossos amigos? 


Amores iniciam-se instantaneamente. Casamentos que são um verdadeiro show e exigem uma performance à altura de todos os presentes; e que se desfazem antes mesmo de encerrada a festa ou então pouco tempo após o fausto. Todo ser humano busca ser feliz e por isso esse tema é antigo e ambíguo. Há milênios grandes homens dedicam-se à tão caro tema. Heródoto, Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro (de todos, o meu predileto), São Tomas de Aquino, Descartes, Kant, Freud, Nietzsche, Sartre, são exemplos de Pensadores que destinaram boa parte de seu Ócio (no sentido filosófico) a essas reflexões. Acerca desse tema, li recentemente artigo da Professora Gisele Leite, publicado no portal da Universidade Federal de Santa Catarina datado de 2013, intitulado 


“Reflexões sobre o conceito de felicidade para sociedade contemporânea” que elucida uma série de questões e propõe à ponderação outras tantas. Vale a pena conferir. A autora peregrina pela história e por conceitos políticos e filosóficos, ancorada principalmente na abordagem do filosofo italiano Giorgio Agamben, elucida a questão da Felicidade como direito – a ONU a propõe como um dos direitos básicos instituindo o 20 de março como o Dia Internacional da Felicidade – e conclui propondo alguns questionamentos que supõem outras elucidações: “...mas se a felicidade depender não apenas do presente momento, mas também do futuro de um determinado ideal que se busca?... Sabendo que na sociedade de consumo busca-se a produção maior de felicidade o que fortalece a felicidade simplista. A história da felicidade demonstra transformações profundas do amor e do lazer e na organização do trabalho que vem sendo acompanhada de turbulências e de insuspeitas perspectivas futuras... 


E, afinal o Estado contemporâneo estará mesmo apto a garantir o direito à felicidade? Só a história poderá responder”. Compartilho da conceituação epicurista que profere que a vida feliz só é possível com as inseparáveis: sabedoria, honestidade e justiça. Enfim, seja em um Jardim ou em um Banquete, no Logos, no Eros ou no Id, como Camelo, Leão ou Criança, ou Homem Sagrado, Felicidade não é um conceito restrito ao nosso tempo, mas sua banalização sim!  Por isso valorizo a atitude de minha filha, e de seus irmãos, ao optarem como meta para seu futuro a Felicidade. E que eles, e tantos outros, que optaram por Pensar (sim com o P maiúsculo!) possam experienciar esse conceito na dicotomia do cotidiano, através de exemplos, valores, leituras, reflexões, discussões, e, acima de tudo, de práxis.


* O título refere-se à belíssima obra do Filósofo Epicuro de Samos: Carta Sobre a Felicidade (a Meneceu). Outra importante leitura a quem se dedica ao Pensar.


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