A interpretação da realidade e as relações dos indivíduos com ela e o mundo orientam as condutas e comportamentos na esfera individual e social. Assim o é em relação ao uso da maconha: sua utilização vincula-se ao contexto em que vivem os atores sociais, bem como a processos sociocognitivos, considerando-se os afetos, condutas e compartilhamento de crenças, valores, perspectivas e experiências[i] como forma de representação social. Dessa forma, essa representação implica um conhecimento que se origina nas inter-relações, troca de experiências, vivências e conversações de indivíduos e grupos.
Doise[ii] esclarece que uma representação social remete tanto à esfera intrapessoal quanto à interpessoal ou grupal e oferece uma análise do compartilhamento dessas representações sociais, vistas como um processo público de criação, elaboração, difusão e mudança no discurso cotidiano dos grupos sociais. Para Moscovici1, é a forma de uma comunidade elaborar um objeto social para se conduzir e comunicar.
Dessa forma, a representação social da maconha passa pela atribuição de significados sociais a esse objeto e explica o pensamento social de seu uso ou de sua rejeição, por meio de dois fatores: a objetivação e a ancoragem, que dão suporte à sua representação e significados.
Pela objetivação, transforma-se uma ideia (uma abstração) ou um conhecimento em algo concreto, transmuda o estranho em familiar e confere naturalidade ao que parecia diferente ou estranho. A ancoragem, por sua vez, oferece suporte (motivação) à inserção desse conhecimento em um quadro de referência individual ou grupal, a partir de experiências dos pensamentos sobre o objeto.
Sabe-se que o uso da maconha provoca consequências nefastas e dolorosas tanto ao indivíduo quanto à sociedade, podendo provocar um sofrimento que interfere na diminuição da qualidade de vida, dilacerar afetos e investimentos pessoais e romper os limites fronteiriços entre idades, classes socioeconômicas, culturas e espaços geográficos[iii] (Bastos, 2003). Na esfera pessoal, os danos revelam desenvolvimento de doenças mentais como a esquizofrenia, depressão e crises de pânico, redução do interesse e de motivação pela vida (síndrome amotivacional), hipersensibilidade a estímulos sensoriais, alterações da percepção temporal e, dependendo da elevação da dose, perturbações da memória, alterações do pensamento, sentimentos de estranheza e até mesmo alucinações e despersonalização.
Espera-se que, na reelaboração dos conceitos e representações sociais da maconha, se tenham em vista ações voltadas para uma intervenção multidisciplinar no sentido de prevenção e promoção da saúde; que não se tenham tão somente ações pontuais para alívio temporário ou em atendimento à satisfação de um modismo ou uma tendência momentânea ou contemporânea.
[iii] BASTOS, M. T. Combate ao narcotráfico. Revista de Cultura-IMAE, v. 4, n. 9, p. 6-11, 2003.