André Marcelo

Prática do uso da Maconha e suas representações sociais

Prática do uso da Maconha e suas representações sociais

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Publicada há 9 anos

A interpretação da realidade e as relações dos indivíduos com ela e o mundo orientam as condutas e comportamentos na esfera individual e social. Assim o é em relação ao uso da maconha: sua utilização vincula-se ao contexto em que vivem os atores sociais, bem como a processos sociocognitivos, considerando-se os afetos, condutas e compartilhamento de crenças, valores, perspectivas e experiências[i] como forma de representação social. Dessa forma, essa representação implica um conhecimento que se origina nas inter-relações, troca de experiências, vivências e conversações de indivíduos e grupos.

 

Portanto, a representação social do uso da maconha desenha um fenômeno social que emerge do cotidiano e se investe de símbolos que lhe dão sentido – uma espécie de acordo social que tem época e motivação para eclodir. Um desses sentidos é o de pertença a um grupo, fundado no senso comum, com influências mútuas, formais e informais, assimiladas e reelaboradas continuamente.

 

Doise[ii] esclarece que uma representação social remete tanto à esfera intrapessoal quanto à interpessoal ou grupal e oferece uma análise do compartilhamento dessas representações sociais, vistas como um processo público de criação, elaboração, difusão e mudança no discurso cotidiano dos grupos sociais. Para Moscovici1, é a forma de uma comunidade elaborar um objeto social para se conduzir e comunicar.

 

Toda representação se constrói a partir da relação do sujeito com o objeto representado, e uma representação social não pode ser compreendida como processo cognitivo individual, mas como um intercâmbio de relações e comunicações interindividuais ou grupais, que apreendem a ideia ou um objeto e reelaboram conceitos e práticas a partir das realidades dos sujeitos.

 

Dessa forma, a representação social da maconha passa pela atribuição de significados sociais a esse objeto e explica o pensamento social de seu uso ou de sua rejeição, por meio de dois fatores: a objetivação e a ancoragem, que dão suporte à sua representação e significados.

 

Pela objetivação, transforma-se uma ideia (uma abstração) ou um conhecimento em algo concreto, transmuda o estranho em familiar e confere naturalidade ao que parecia diferente ou estranho. A ancoragem, por sua vez, oferece suporte (motivação) à inserção desse conhecimento em um quadro de referência individual ou grupal, a partir de experiências dos pensamentos sobre o objeto.

 

Sabe-se que o uso da maconha provoca consequências nefastas e dolorosas tanto ao indivíduo quanto à sociedade, podendo provocar um sofrimento que interfere na diminuição da qualidade de vida, dilacerar afetos e investimentos pessoais e romper os limites fronteiriços entre idades, classes socioeconômicas, culturas e espaços geográficos[iii] (Bastos, 2003). Na esfera pessoal, os danos revelam desenvolvimento de doenças mentais como a esquizofrenia, depressão e crises de pânico, redução do interesse e de motivação pela vida (síndrome amotivacional), hipersensibilidade a estímulos sensoriais, alterações da percepção temporal e, dependendo da elevação da dose, perturbações da memória, alterações do pensamento, sentimentos de estranheza e até mesmo alucinações e despersonalização.

 

A representação social das drogas como um todo, e em especial da maconha, se coloca, destarte, como uma discussão importante na sociedade, especialmente entre jovens, universitários e estudantes, uma vez que essa representação determina as práticas sociais de seu uso, particularmente entre os mais jovens que devem gerenciar seu futuro e sua vida. Tenha-se em vista que o problema (representação social da maconha) os afeta individual e coletivamente através do sofrimento, da angústia e sensação de aprisionamento, mesmo diante do sentimento de pertença que, em vez de aliviar a dor e sentimentos negativos, os potencializa gradual e continuamente. Destaca-se, aqui, que o primeiro e mais relevante elemento social a ser atingido por seus efeitos é a própria família, expandindo-se, em seguida, para outros e diferentes grupos sociais.

 

Espera-se que, na reelaboração dos conceitos e representações sociais da maconha, se tenham em vista ações voltadas para uma intervenção multidisciplinar no sentido de prevenção e promoção da saúde; que não se tenham tão somente ações pontuais para alívio temporário ou em atendimento à satisfação de um modismo ou uma tendência momentânea ou contemporânea.

 

[i]  MOSCOVICI, S. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.


[ii]  DOISE, W. Les représentations sociales. In: GHIGLIONE; BONNET, C; RICHARD, J. F. (Orgs.). Traité de psychologie cognitive, v. 3, p.23-34, 1990. Paris: PUF, 1990. 

 

[iii] BASTOS, M. T. Combate ao narcotráfico. Revista de Cultura-IMAE, v. 4, n. 9, p. 6-11, 2003. 

 

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