UM POUCO DE CAD

A Guerra dos Deuses

A Guerra dos Deuses

Por Osvaldo Secatto

Por Osvaldo Secatto

Publicada há 10 anos

Houve outrora, em tempos sem registro pela História, um casal de sábios, inexplicavelmente letrados no conhecimento da natureza e do mundo. Permaneciam isolados dos povos dos homens por vontade própria, mas não lhes negavam conselhos quando pedidos apropriadamente. Quando ambos haviam quase desaparecido da consciência dos homens, deuses surgiram, e com eles inúmeras dúvidas e novas respostas. Ora, viu-se, então, que os deuses se alimentavam da idolatria que recebiam e passaram a disputar poder. Cada povo dera vida a um novo deus, ou a inúmeros ao mesmo tempo, e todos os deuses passaram a combater-se, digladiando à luz do dia e na escuridão da noite. Na terra, eram os homens que guerreavam em seus nomes. Desse modo é que se tornaram autores de inenarráveis atrocidades. A guerra despertou a atenção dos sábios, e Gnay e Niy sentiram o fim dos tempos se aproximar muito antes do que fora previsto, diante de tamanho poder varrendo os céus e abalando a terra. Foi quando anularam sua neutralidade nas coisas do mundo e nos assuntos do homem, pois os deuses eram criações dos próprios homens. Assim desceram lentamente o Monte Soahk, onde viviam, para ter com os povos do mundo. E destes, tão logo convidados — e todos o foram —, muitos compareceram, pois lhes tinham respeito; outros tantos, porém, os ignoraram, eis que lhes haviam, por inteiro, caído no esquecimento — um abismo voraz que habita o coração do homem. Dos que compareceram, alguns entenderam as palavras dos sábios; destes, poucos conseguiram convencer seus povos; e, dos poucos, menos ainda atingiram o fim da tarefa assinada. Muito tempo passou, e os deuses — que haviam sido criados não menos que pela fé das pessoas e pelo poder do Universo, que envolve as vontades intensas —, de servos do desejo humano de alento superior, passaram a senhores de destinos e vidas, bem como dos rumos do mundo. Niy e Gnay não mais se contiveram, e o mundo, que já fora advertido, presenciou um poder assombroso e jamais visto. Céus e terra tremeram ainda mais. Por magia poderosa convocaram os deuses, todos eles, ao Monte Soahk. E de Rá a Maat e Anúbis, de Apocatequil a Inti, de Anshar a Nimrud, de Zeus a Netuno e Marte, e tantos outros, todos ouviram as palavras dos sábios, mas negaram sua validade. Haviam por tanto tempo se entorpecido por suas próprias mentiras que não mais aceitariam a verdade, menos ainda a reconheceriam sob seus narizes e diante de seus olhos. Niy conteve-se; Gnay, não. E ele falou com fúria aos deuses, exigindo que eles se resignassem a seus lugares no mundo e não mais o ameaçassem com seu descuido e ignorância. Ela observou. E os deuses indignaram-se! Já haviam esquecido que pela magia dos sábios foram trazidos àquele lugar — contra a vontade de muitos deles — e contestaram-nos: “Quem sois vós, pequenos homens mortais e servos dos deuses, para dizer aos governantes do mundo o que devem ou não fazer?! Sabereis agora vosso lugar...” E partiram para atacá-los. Niy abandonou sua ternura. Gnay inteirou seu furor. E ambos estenderam a mão para os inúmeros deuses à sua frente. Nesse momento, alheios ao tempo do mundo, tal qual um par de serpentes de fumaça e luz, enormes raios tremularam das mãos dos sábios e envolveram os deuses, que não mais se puderam mover. Do sopro de cada um, tiraram uma semiesfera, que uniram e formaram um globo reluzente. O globo perdeu a luz e tornou-se escuro. Os sábios, então, disseram: “Deuses dos homens. Vós vos olvidastes de que sois servos, não senhores. E que pertenceis aos homens. Abusastes do poder do Universo que, apenas através dos homens, adquiristes. Aqui contemplai vossos juízes e ouvi vossa sentença. Uma vez que sois dos homens, a lei do mundo nos proíbe de vos exterminar. Mas, como juízes e executores, é-nos garantido todo o mais. Vereis o aprisionamento até que vossa sentença seja revogada!"

Os sábios, juntos, empunharam a esfera na direção dos deuses e a soltaram. A esfera flutuou até os deuses, que, imóveis, foram sugados um a um para dentro dela. A terra, os céus e as águas se acalmaram. O homem, porém, não despertou de sua ilusão, e os ecos de tais deuses e seus nomes continuaram a retumbar em sua mente. Os sábios colocaram a esfera num pedestal no meio de seu jardim, de onde se podiam ver as estrelas e sofrer o calor do sol e o frio do inverno. Gnay e Niy se recolheram, então. E desde aquele dia, perdido no passado do tempo, a magia do mundo foi confinada e lá continua até hoje. 

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