Muita coisa boa se perdeu ao longo dos anos, e o civismo parece que foi uma delas. Na minha época de estudante, cadernos como os da foto acima, traziam a imagem da Bandeira, o mapa do Brasil e a letra do Hino Nacional na contracapa: e o Hino era cantado todos os dias nas escolas, antes da entrada para as salas de aula. E as datas cívicas eram comemoradas com solenidade e pompa.
Quem nunca participou de um grande desfile do Dia da Cidade ou de Sete de Setembro, não sabe o que perdeu. Foram dias e momentos que marcaram profundamente nossas vidas, porque além de bonitos e empolgantes, os desfiles eram acontecimentos memoráveis aguardados por todos. Lembro que havia a saudável disputa entre as escolas participantes.
E ali aprendemos as primeiras lições práticas do que era trabalhar em equipe, porque todas as classes se juntavam, a escola se unia em torno de um objetivo comum, que era fazer bonito, arrancar aplausos e emocionar a plateia que se juntava e se espremia nas calçadas das ruas do centro da cidade para ver o grandioso desfile. Eram tempos felizes e encantadores. Bons tempos aqueles em que o professor era autoridade, respeitado e valorizado dentro e fora das salas de aulas. Particularmente, sempre tive grande respeito e admiração pelos meus mestres. Lembro que todo dia 14 de outubro, véspera do Dia do Professor, os alunos sempre levavam algum presentinho, por mais simples que fosse; ninguém chegava de mãos vazias na escola; um doce, uma fruta, um mimo, uma singela cartinha ou desenhos carinhosos.
Mas já que estamos falando de professores, escolas, desfiles, livros e cadernos, na minha época de Grupo Escolar e Ginásio, as coisas eram muito diferentes. Lembro que havia muitas datas importantes e especiais no calendário escolar, mas nenhum dia me seduzia mais do que aquele, quando o professor passava para a gente a lista de compras do material escolar, sempre no começo de cada ano. Era uma fixação. Trago essas lembranças ainda muito vivas em minha memória. Nos tempos do “Grupo Escolar”, os cadernos, por exemplo, era um capítulo à parte. Todos eram do tipo brochura (só no Ginásio a gente foi ter o primeiro contato com o tal caderno espiral). E os professores exigiam um zelo muito grande na guarda e no manuseio deles.
Isso tinha lá a sua razão: despertar na moçadinha o senso de limpeza, de capricho, de cuidado, de conservação, etc. Uma dobrinha, lembra? Aparecia a famosa e terrível “orelha”, na ponta das folhas, e logo se recebia censura do mestre, pois aquilo indicava desleixo. Enfim, foi assim que aprendemos a dar valor às pequenas coisas. E tem mais; no começo, eles eram encapados com papel de seda, também conhecido como papel impermeável colorido (daqueles que a gente fazia nossas pipas) e etiquetados. As cores variavam conforme o “ano” em que o aluno estava. Cada série tinha a sua cor, verde, vermelho, amarelo e azul.
No ginásio, mais tarde, surgiu o papel pardo, porque era mais resistente que o impermeável. Lembro que existiam diversos cadernos, cada um para uma determinada atividade: de linguagem, de desenho, de tarefa, de ocupação, de pontos (textos das matérias) e outros. Isso dependia de cada professor. O de “ocupação” era, de longe, o mais usado. Nele eram feitos os exercícios e problemas de aritmética, redação, descrição “à vista de uma gravura”, cópias da lousa, etc. Os outros cadernos, como o de caligrafia, onde a gente treinava fazer a letra bem legível e redondinha e o de desenho, por exemplo, ficavam guardados nos armários da classe. Quando havia atividade dessas áreas, eles eram distribuídos e depois, novamente recolhidos no término. No final do ano eles eram levados para casa, sempre novinhos e limpinhos, embora quasepreenchidos.. Na escola do meu tempo, no final dos anos 50, a garotada fazia o “primeiro ano” do primário
usando caderno, lápis, borracha e só.
A partir do “segundo ano”, as coisas mudavam. O aluno, já alfabetizado, se deparava com duas situações bastante “ameaçadoras” nos primeiros dias de uso daquelas novidades: a caneta de pena e o vidrinho de tinta, sempre acompanhados, é claro, do utilíssimo mata-borrão, lembra?. Qualquer descuido e lá estava a tinta sujando a tampa da carteira, sempre dividida com um colega de classe. Sujar as mãos era inevitável, o caderno e, muito pior, a camisa branca limpinha! Era nos vidrinhos cheios de tinta onde se molhava a ponta (bico) da pena, uma vez que os pequenos reservatórios fixos na “carteira” viviam quase sempre vazios, ou até proibidos de serem usados, porque os riscos de “desastres” eram bem maiores. As penas da caneta, quando gastas ou pressionadas em demasia, abriam no meio. Aí tinham que ser trocadas.
Cansei de consertar bicos daquelas coloridas canetas de pena! Quando a gente chegava no terceiro ano do Grupo Escolar, já era permitido o uso da caneta-tinteiro, que nem todos usavam, tendo em vista o seu preço prá lá de salgado. Nessa época, me lembro que eu tinha uma caneta tinteiro da marca “Estudante” cor de vinho, linda mesmo. Caprichoso, só usava tinta da famosa marca Parker! Alguns anos mais tarde, quando a gente estava chegando ao ginásio, para nossa alegria e felicidade geral de nossas mães, surgia a grande novidade do século: a caneta esferográfica! Mas o que me deixava maluco e babando diante das vitrines da antiga Livraria e Papelaria Narita, que ficava na Rua São Paulo diante da antiga Rodoviária, eram as caixas de lápis de cor. Lembro que os estojos eram de lata e o número de lápis era variado. Havia os mais simples e baratos, de caixinha de papelão fininho, com 6 ou 12 unidades.
Um dos objetos escolares mais cobiçados pela moçadinha do meu tempo eram aquelas fantásticas caixas multicoloridas da John Faber, com 36 ou 48 lápis grandes. Aquilo sim era o meu sonho de consumo. Agora, só para matar saudades, vamos fazer um breve repasse na lista de material que usamos naqueles tempos do grupo escolar; Cartilha Caminho Suave ou a Cartilha Sodré, lápis, borracha, apontador, régua de madeira, estojo, caixa de lápis de cor, livrinho de tabuada, cadernos brochura, lembra? E mais tarde, novidades que viriam na terceira, quarta série: esquadro, régua plástica, transferidor, compasso, caneta...
Uma caneta Parker 51, por exemplo, só veríamos nas mãos dos nossos mestres ou de alunos de famílias abastadas. Bom mesmo eram as famosas brochuras. Nada de cadernos de molinhas, os espirais, para ficar arrancando as folhas. Por isso, o melhor deles era o Caderno Avante (foto acima). Aquele dos escoteiros na capa, trazendo na contracapa o mapa do Brasil e a letra do Hino Nacional. Eramgrampeados no meio, com 80 folhas pautadas em linha azul e com aquela famosa margem vermelha. De graça mesmo, só um mata-borrão e uma grade de horário escolar que a gente ganhava de brinde nas livrarias. Nosso espaço acabou e não contei quase nada, mas ainda volto ao assunto. Semana que vem tem mais. Até lá.