O menino tinha várias tias que o adulavam. Como primeiro sobrinho e também primeiro neto na família da mãe, era constantemente paparicado. O avô materno ao menos duas vezes na semana levava para dar uma volta no seu triciclo motorizado de modelo antigo, apelidado de “bodinho” pelas tias, que o avô afirmava ser importado e ter participado na segunda guerra mundial.
Os passeios com o avô aconteciam nas avenidas e ruas dos bairros, onde, vez ou outra, o patriarca parava para falar com amigos ou entrar em um bar e tomar uma pinguinha, quando oferecia doces ao neto. Apesar do possível mau exemplo, nunca ofereceu qualquer bebida alcoólica ao neto, ao contrário, dizia que era proibido, permitido, além dos doces, somente refrigerantes.
O grande exemplo ao menino viria em uma das visitas a um mercadinho que, entre outras mercadorias, vendia brinquedos, já que outra prática do avô era também comprar brinquedos para o neto uma vez por mês. Como de costume, deixou o menino solto entre as prateleiras forradas de brinquedos para que escolhesse o que mais o agradasse. Foi então que o neto pegou nas mãos um revólver de brinquedo, não dessas réplicas perfeitas que existem hoje, apenas uma arma de plástico, que pelo acabamento parecia ter um preço bem barato.
O menino chegou perto do avô, estendeu os braços com o brinquedo nas mãos, e disse: “É este que eu quero”. O avô, que estava distraído batendo papo com o dono da loja, conhecido dele, virou-se, olhou para as mãos do neto e soltou um sonoro “NÃO!”. E emendou: “Você pode escolher qualquer brinquedo dessas prateleiras, menos este.”.
O garoto, meio ressabiado, voltou às prateleiras e em poucos minutos escolheu outro passatempo, que julgava ser de muita utilidade quando ele estivesse brincando no quintal de casa. Um pequeno arco com três flechas, em cujas pontas estavam afixadas ventosas de borracha, prontas para grudarem nas superfícies que fossem atingidas pelo arremesso das flechas. Com exceção das ventosas, todo o brinquedo era de um plástico rudimentar, como a maioria dos outros existentes naquele comércio.
Quando o menino foi até o avô com segunda opção de presente nas mãos, ele já o estava esperando. Ante a última escolha do neto, ficou observando-o na busca de seu passatempo. A nova tentativa do garoto foi novamente frustrada, sem muita surpresa da parte dele, pois, no fundo, conscientemente ou não, sabia que estava tentando testar o avô. “Este também não!” - foi o que ouviu do avô, agora com um tom de voz mais comedido. O que talvez tenha sido surpresa foram as palavras seguintes que ouviu. O avô abaixou na frente do neto, ficando frente a frente com ele, os olhos dos dois na mesma altura, e falou com certa aspereza e rigidez nas palavras: “Você pode escolher qualquer brinquedo que tenha dentro deste mercado, pode ser o mais caro, menos o que seja arma. Não vou comprar uma arma para você, porque isso não é coisa para criança. Vai, pode escolher o que quiser”.
O avô levantou e continuou a conversa com o amigo. O menino voltou às prateleiras e, quem sabe, para um segundo teste, a fim de saber se o avô estava falando sério, escolheu um brinquedo caro, que tinha gostado, mas achava que o avô não compraria, porque ele mesmo imaginava que o preço seria alto demais. Para última surpresa, o avô sorriu, pegou o brinquedo nas mãos, e falou expressando bastante contentamento: “Este sim, este eu compro” - colocando sobre o caixa, onde fez o pagamento.
A arma mais poderosa é o exemplo. A munição mais potente é o “não”, no momento certo e da maneira adequada. Educar não é brinquedo.