Dia desses, conversando com um velho amigo sobre as histórias desta coluna, lembrando algumas passagens da nossa infância, chegamos à definitiva conclusão que sobreviver até os dias atuais foi um verdadeiro milagre. E pensando bem, foi isso mesmo: um milagre e dos bons!
No nosso tempo, por exemplo, havia o refrigerante Grapette, lembro do famoso sabor uva embalado em garrafinhas de vidro que lembram as de Coca-Cola. O slogan do refrigerante era bem sugestivo: “Grapette: quem bebe, sempre repete!” E repetia mesmo, até porque a gente achava a maior graça ficar com a língua e a boca roxa de tanto corante que havia na composição da bebida.
Ainda sobre as guloseimas daqueles tempos, lembro que a gente se empanturrava daqueles doces de abobora em forma de coração, pedaços triangulares de doce Sírio com cobertura de açúcar cristal, das famosas marias-moles e daqueles imensos tufos de algodão doce. Fora os torrões de açúcar, que a gente comia escondido de nossas mães. E ninguém morria, nem engordava, porque a gente queimava todas aquelas montanhas de calorias com nossas intensas atividades físicas diárias. E é claro, naquele tempo, o açúcar não era esse veneno de hoje em dia, cheio de produtos químicos e sabe se lá mais o quê.
Sorvetes de casquinha ou os famosos picolés da Sorveteria Branca de Neve ou do Nosso Bar, a gente tomava todo santo dia. E nas calorentas tardes de verão, nossas mães preparavam imensas jarras de Q-Suco, variando cada dia um sabor. E quando não tinha Q-Suco na vendinha perto de casa, a gente misturava Groselha com água e era a mesma coisa. Fora aquelas enormes rodelas de pão caseiro, feitos em fornos que haviam nos quintais das nossas casas, embrulhados em folhas de bananeiras e assados no capricho. Toda casa tinha seu fogão à lenha e um grande forno no quintal. Fogão a gás era artigo de luxo, coisa que só se via na casa de gente rica. Será que você ainda se lembra das balas Chita, Pipper, Toffee, Sete Belo e dos tabuleiros de pirulitos e quebra-queixo? Então...
Mas essa gula por doces tinha lá o seu preço. E isso não saía barato, não. Havia muita verminose entre as crianças do meu tempo e o remédio, prá variar, era sempre amargo. Havia até uma frase que dizia que remédio bom era remédio amargo. E por conta disso, de tempos em tempos, para combater o “amarelão” a gente tomava à força “suco de erva Santa Maria” com pílulas de óleo de ricinio, aquelas verdinhas terríveis quese a gente mastigasse alguma delas, ficava com a boca queimando o dia inteiro. Ah, tinha também o famoso “Salamargo”, argh!
Em compensação, a gente ia a pé para a escola e depois da tarefa pronta, íamos de novo a pé para as casas dos amigos e de lá para os campinhos de futebol ou brincar nas ruas. Voltar prá casa, só ao escurecer. E pra cada época do ano havia uma mania entre a molecadinha. Na primavera, por exemplo, a diversão predileta dos meninos da periferia da cidade era arranjar uma peneira para apanhar borboletas nos terrenos baldios, onde floresciam os “Capitães-do-Mato” de todas as cores, formando verdadeiros jardins naturais.
Desde aquela época, agosto era conhecido mês do “cachorro louco” e das ventanias, era tempo de empinar papagaios e o ponto preferido dos meninos era a Praça da Igreja Matriz. Em outros meses do ano, a mania era andar de pernas-de-pau ou “pés-de-lata”; jogar bilboquê ou participar de animadas disputas de jogo de “bétias”(raquetes), com as casinhas armadas com três pauzinhos sobrepostos, ou por uma velha lata de óleo “Sol Levante” daquelas quadradas. Esse jogo era disputado em duplas, com dois jogadores atirando a pequena bola de borracha(do tamanho de uma bola de tênis) para derrubar a “casinha” e os rebatedores, sempre se defendendo e protegendo a casinha. Quando ela era derrubada, os jogadores trocavam de posição. E isso acontecia muitas vezes durante a partida.
Quando alguém acertava uma bela raquetada, os rebatedores corriam de uma casinha à outra, trocando de lugar, quantas vezes pudessem, batendo as bétias e contando dois pontos cada vez que se cruzassem. Ao final, quando a dupla de rebatedores atingia 24 pontos, cruzavam as raquetes no meio do campo e era preciso chutar a bola com os pés, até acertar um belo petardo mandando a bolinha longe, indo até o meio de campo, apanhar de volta as raquetes e comemorar a vitória. Era um esporte muito divertido, bastante disputado e todo mundo respeitava as regras do jogo.
Mas bom mesmo era quando algum amigo da turma ganhava uma bicicleta no Natal ou no dia do aniversário. Aí todo mundo podia dar uma voltinha. Lembro que um dia, um amigo da minha rua ganhou uma linda “lambretinha” verde, da Brinquedos Bandeirantes (de latão), igualzinha o modelo da foto acima. Depois de muito negociar, consegui dar uma voltinha e por azar levei um baita tombo num buraco da rua. Claro que com a queda acabei amassando a frente da “lambretinha” novinha do meu amigo. Não demorou muito e a mãe dele foi reclamar com a minha. Resultado: levei uma bela sova de chinelos e uma semana de castigo sem poder botar os pés na rua. E pior, se reclamasse o castigo dobrava. Semana que vem eu conto mais. Até lá.