Na Curva do Rio

Saiu no braço

Saiu no braço

Por Chico Piranha

Por Chico Piranha

Publicada há 9 anos

Conta o compadre Geraldo, que lá por volta dos anos sessenta, um conterrâneo, gente boa que só vendo, comprou um sitiozinho nas vizinhanças da sua fazendinha de três mil e tantos alqueires lá pelas bandas de Aparecida do Taboado, no tempo que aquele mundão era só o velho Mato Grosso, antes da divisão do Estado.


O novo vizinho era um baiano sistemático e sacudido, sujeito da conversa bem curtinha, bom de braço no machado e um mestre na arte de manusear um bom facão de aço puro. Não demorou muito e logo ficou amigo do Compadre. Aliás, o compadre toda vida muito assoberbado no batente, sempre gostou de gente de pouca conversa. E ouvindo as famosas histórias de caçadas de onças que o Compadre só conta prá quem ganha sua confiança, o baiano logo tomou gosto pela coisa.


Um belo dia o vizinho resolveu sair pra fazer uma caçada. Prevenido, colocou sua roupa de couro cru do tempo que era campeiro na caatinga nordestina, sem esquecer o chapéu de couro, que dizia ter sido presente de um cabra da turma de Lampião. Facão de aço puro na cinta, cartucheira 36 e um embornal cheio de cartuchos. Todo paramentado, cabra corajoso da moléstia, meteu a cara na mata fechada.


Duas léguas adiante do sitio, deu de cara com uma bitelona duma onça pintada. Assombrado com o tamanho daquela criatura feroz, fez mira, arrastou o dedo no pinguelo e... puuummm! Errou feio. Rápido que nem um corisco, enfiou a mão no embornal pra apanhar outro cartucho, e aí percebeu de perto o tamanho da encrenca em que tinha se metido...


Injuriado, descobriu que na afobação, na pressa de sair pra caçada, apanhou o embornal errado. Invés de pegar o embornal de cartuchos, distraído, acabou levando o embornal cheio de bolinhas de saibro que seu filho usava para caçar passarinhos com o estilingue. Decididamente, estava no mato sem cachorro. Ele, com as pernas bambas, olhando pra onça e a onça lambendo os beiços, olhando prá ele...


Como todo bom baiano, era fervoroso devoto do Padre Cícero. Diante daquela situação, sem saída, olhou pro Céu e pediu:


- Meu Santo PadinCiço... se o senhor tiver à favor da onça, faça com que tudo se acabe na primeira patada que ela me der... se o Senhor tiver à meu favor, faça com que a bichona estrebuche no primeiro sopapo que eu sentar  no “pé-da-oreia” dela... agora, se o senhor não tiver à favor de nenhum de “nóis” dois... desce aqui prá ver o pau que vai quebrar agora!

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