André Marcelo

O lugar do Sonho na psicopatologia

O lugar do Sonho na psicopatologia

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Por André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Publicada há 9 anos

Experiência humana fascinante e enigmática, o sonho, ao longo da história, tem exercido grande curiosidade e interpretado das mais variadas formas. O sonho é um fenômeno associado ao sono e pode ser considerado uma alteração normal da consciência; é um fenômeno psicológico extremamente rico e revelador de desejos e subjacentes temores inconscientes. Ainda que de forma indireta e disfarçada, seu conteúdo tem um sentido.


Freud[i]baseia-se na suposição de que o sonho poderia constituir-se um lugar de descobertas e reflexões. No sonho, há uma espécie de diálogo entre o subjetivo (ou vida psíquica) e a consciência, ensejado pela transferência. Nessa concepção, o sonho coloca a psicopatologia fundamental[ii] em sua posição autêntica, uma vez que, ao considerar o sujeito na sua singularidade, faz aflorar à consciência sua história inconsciente e revelar sua subjetividade. Quando em sofrimento, o sujeito se envolve com aquilo que o faz sofrer; nessa situação, o interesse da psicopatologia (fundamental) visa fazer emergir do âmago (psique) uma experiência compartilhada pelo sujeito, permitida por uma relação dialógica entre subjetividade e consciência. A tarefa da psicopatologia é, então, proporcionar ao sujeito posicionar-se como observador de si mesmo.

 

Freudi esboçou um primeiro desenho do lugar da metapsicologia (um dos métodos de abordagem da clínica psicanalítica), um topos, em que os processos oníricos apresentavam a etiologia das neuroses eo problema das localizações cerebrais. Nesse sentido, Freudacrescenta que os sonhos, que são formações do inconsciente e surgem na consciência como subprodutos, não refletem apenas os sintomas de doenças, mas veiculam expressões do psíquico: os sonhos, inseridos no funcionamento normal, espelhariam a doença na forma de reproduções aumentadas ou caricaturais. Nas palavras de Freudi (p. 168), “o objetivo inconsciente requer que a exibição continue; a censura [consciente] exige que ela cesse”.

 

Dessa forma, não se pode apartar a descrição etiológica do sintoma e um correspondente significado inconsciente: sintoma e significado inconsciente se articulam no processo de transferência, o que possibilita ao sujeito, posicionado agora em um terceiro lugar, observar os fenômenos psíquicos dos quais o sonho é seu principal representante. Assim posicionado, o sujeito que observa pode olhar a partir de uma perspectiva afastada (mas não apartada) aquilo que ocorre: o sonho e seu significado, a relação do fenômeno com seu sentido, permitidos pela transferência; como consequência, pode vir a conhecer-se subjetivamente.

 

Essa noção de observador, a partir da relação compartilhada (objeto–sonho e observador–sujeito), abre a possibilidade de exame e investigação dos conflitos. A observação se internaliza gradualmente e, ao narrar o sonho, o sujeito revela sua história e desenha seu psicossoma. Ele rompe com os traumatismos de vigília e, ao nomear a matéria (carne) dolorida, ganha dimensão psíquica. O relato deixa de ser apenas onírico e ganha a qualidade da narrativa de experiência; o sonho, vívido de imagens, se metamorfoseia em conteúdo psíquico a ser interpretado e pode constituir-se um local de construção e, simultaneamente, desconstrução.

 

A noção de subjetivo, para a psicopatologia fundamental,conduz ao inconsciente erotizado[iii]: é como se o sujeito descobrisse um estranho dentro de si mesmo. Nesse sentido, o alcance e a compreensão do sonho se transformam em método de aproximação entre “esse estranho” e o sujeito. O trabalho do sonho transforma os conteúdos latentes (inconscientes) do sonho original em conteúdos manifestos (conscientes) do sonho lembradoi. Em psicopatologia, o sonho representa o resultado de uma intensa negociação entre o inconsciente (que visa expulsar, forçar os desejos para a consciência)e o consciente (que visa impedir que tais desejos inconscientes emerjam). Interpretá-lo enseja ao psicólogo (psicanalista) trazer o inconsciente ao consciente e pensar os conflitos subjacentes.

 

[i] FREUD Sigmund. A interpretação dos sonhos – I parte (1900). Tradução J Salomão J. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud; v. IV). 

 

[ii][ii]  BERLINCK, M. O que é psicopatologia fundamental. In: Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. I. n. 1. p. 46-59, 1998.

 

[iii] FREUD Sigmund. O ego e o ID e outros trabalhos (1923-1925).Tradução J Salomão J. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud; v. XIX).

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