José Renato To

Memória e Esquecimento

Memória e Esquecimento

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa

Publicada há 10 anos

Minha mulher, Jacqueline, publicou há algum tempo uma bela coluna na qual produzia um paralelo entre Huxley e Orwell, no sentido de estabelecer o quanto ambos acertaram em suas visões do futuro. Todavia, salientava que com base na elucidação de um filósofo, cujo nome não me recordo, o autor de “Admirável Mundo Novo” foi mais assertivo, na medida em que apontava que o domínio de corações e mentes dar-se-ia pela diversão.


Com base nisso, me pus a pensar: nesse instante vivemos dois fenômenos díspares, porém, confluentes: As Olimpíadas no Rio de Janeiro e a “caça aos Pokémons”.


O primeiro, evento de grande monta, dispendiosamente indecente em termos de gastos públicos, bandalheiras e corrupção, afora o espetáculo da incompetência: evento a iniciar e as obras incompletas. A cara do Brasil real.

Sexta-feira passada houve a “cerimônia de abertura”. Confesso, assisti parte. Linda, pois, concebida por talentos como Fernando Meireles, Daniela Thomas e Andrucha Waddington. Embora, em minha opinião, longa. Patética ao final, com a turba alienada gritando a maldita marchinha nazifascista “- Sou brasileiro...”. Causa náuseas.


Passou. Começaram os jogos. A cara do Brasil se mostra novamente: índices pífios. Derrotas. Comparado a países que encaram a sério educação, cultura e esporte, é vergonhoso. Sem nacionalismo barato, não aceito a desculpa: “- Estar nas Olimpíadas é um premio”. Bobagem. Conversa de derrotado. Não responsabilizo os atletas. São vítimas de calhordas sem escrúpulos, os quais se enriquecem e se promovem às custas dessa gente humilde e sofrida na maioria dos casos. Que acabam por comover os brasileiros.


Não importa. Perder ou ganhar é o de menos. Conta o fato de a maioria das pessoas conectar-se aos jogos e desligar-se da realidade. Produzir espasmos ufanistas e esquecer o Brasil real.


Enquanto isso... O Senado começou a fechar o caixão da presidenta eleita. A corrupção e a impunidade continuam.


Protagonistas diretos e indiretos da corrupção e da construção do Brasil real são os mesmos que a condenam.


Porém, torçamos.


Simultaneamente, uma febre acometeu os mesmos corações e mentes: Esqueça a vida. Cace Pokémons! É inacreditavelmente patético constatar que jovens e adultos deixam seus afazeres para sair em busca da caça virtual.


Pior é ouvir justificativas positivas da atitude: “- As pessoas estão saindo de casa”. Disseram-me que até depressão foi curada à base de tal caçada.

Prefiro ignorar esses argumentos.


Volto-me ao texto da minha mulher e a Huxley.


Estão corretíssimos. Um pão e circo pós-moderno. Que chique!

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