O poeta Stéphane Mallarmé aborda o jogador de dados num belo trabalho do mesmo nome. Trata do tempo, na medida em que esse para, após o lançamento. Ali se encontra suas expectativas e uma grande promessa do acaso. O acaso... Devemos nos permitir a usufruí-lo. A nos entregar a ele. Deixar que vez por outra fizesse parte de nossas vidas.
A vida cotidiana é tediosa e vazia, nadificada, se nos limitamos a cumprir ritualisticamente a mesmas coisas. Presos a hábitos rotineiros e mecânicos, compulsórios. Basta nos lembrarmos da tragédia de Gregor Sansa, cujo final foi transformar-se num inseto repugnante.
É possível torná-la aprazível, ao menos em alguns momentos, desde que tenhamos projetos, escolhas pessoais, autênticas e legítimas.
Existir em meio a ações repetitivas, competitivas, permeadas pela submissão ao tempo e a eficiência. Otimizar o tempo! Expressão abominável! Significa executar tarefas rápida e alienadamente. Permitir que a vida escorra-lhe entre os dedos, sobrando apenas o tédio e a frustração.
Semana retrasada havia concluído meu texto que comporá o “Caderno Cultura” desse rotativo no próximo mês. Ao acaso, optei por escrever acerca da arte, seus sentidos e atualmente sua ausência, sua relevância e necessidade premente de tê-la no mundo.
Ontem, durante a rotina na escola, recebi de minha coordenadora um texto cuja solicitação era óbvio, lê-lo e preparar uma apresentação no horário pedagógico.
Minha surpresa foi grande: belo trabalho, redigido por Ana Selva Castelo Branco Albinati, professora de Filosofia da rede pública de Minas Gerais. A autora discorre acerca da importância da educação ser mediada pela sensibilização, isto é, uma Educação Estética, não no sentido estrito do termo, aesthésis, “aquilo que sinto”, todavia, como movimento para além da Ética. Proposta nos moldes do poeta e dramaturgo alemão Friedrich Schiller. Quer dizer, sua conduta enriquecida pela sensibilização. Essa somente possível pela arte.
Entregar-se a ler poesia, ver filmes, ouvir música, admirar uma pintura, por exemplo. No entanto, sem a preocupação de uma interpretação crítica ou atividade acadêmica. Permitir que o acaso e a beleza levem-no para outras realidades, para o onírico.
Tenho certeza que a vida mediada pela arte e pelo grande acaso podem nos redimir. Tirar da mesmice, do tédio, do vazio.
Quem sabe, nos tornamos humanos para além do simples e pobre humano.