
Eu sou do tempo que estudante do antigo primário, do ginasial ou dos cursos Normal, Clássico e Científico,olhava para a Bandeira Brasileira com muita reverência e respeito. Valorizávamos e respeitávamos os sagrados símbolos pátrios. Cantava-se o Hino Nacional todo santo dia de forma solene, com os alunos perfilados em ordem unida antes de se entrar nas salas de aula. E com certeza, o leitor amigo deve estar se perguntando por qual razão eu começo a coluna falando sobre esse assunto. Calma gente boa, eu explico.
Nas duas semanas da Olimpíada, alguns atletas brasileiros levados ao pódio por suas conquistas, durante o hasteamento da bandeira e execução do Hino Nacional;emocionados bateram continência. Pronto, estava estabelecida a polêmica e a gritaria geral, afinal aquilo era apologia ao golpe, coisa de apoiadores do militarismo, uma séria e perigosa ameaça à democracia. Estava posto o mimimi ou o chororô como dizem outros. Muita calma nessa hora gente fina. Vamos por partes.
Não sei o que o amigo pensa, mas aí eu me pergunto: como alguém pode criticar que nossos bravos atletas comemorem suas vitórias no pódio durante hasteamento da bandeira e execução do hino batendo continência? Nossas Forças Armadas são um exemplo raro de dignidade neste momento grave do nosso Brasil. Com remunerações modestíssimas garantem nossa segurança e com eficiência, se portam com serenidade garantindo a democracia e sãohoje o único meio de ação e apoio para populações nas áreas mais longínquas do País.
Os atletas em questão receberam incentivos e treinamento nos quartéis e recebem como ajuda de custo o soldo de suas patentes. Todos são sargentos. E sabe quanto ganha um sargento? E vou além, afinal que mal há nesse gesto se quando ainda aluno de ginásio, lembro e tenho saudade do tempo que ainda se saudava a bandeira e o fazíamos com orgulho, batendo continência com civismo, num simples e comovente gesto de patriotismo? Afinal, o que é que há, hein?
Ora, ora. Calma, molhe o bico e senta que o leão é manso. Vamos ao resultado final dos jogos e fazer as contas não é tarefa difícil: a delegação brasileira nos jogos do Rio 2016 somaram 465 atletas classificados e foi a maior de todos os tempos. Deste total, 145 atletas eram classificados e patrocinados pelas Forças Armadas. O Brasil ficou na 13ª colocação com19 medalhas sendo 7 de ouro, 6 de prata e outras 6 de bronze, aliás, nossa melhor marca até hoje.
Daí os nossos polêmicos e “perigosos atletas batedores de continência”,era menos de um terço da delegação.Faça as contas. E aí esse time da “continência”conquistou 13 das 19 medalhas, sendo 5 de ouro, 3 de prata e 5 de bronze. A Marinha foi representada pelos sargentos: Rafaela Silva (ouro no judô), Mayra Aguiar (bronze no judô), Robson Conceição (ouro no boxe), Martine Grael e KahenaKunze (ouro na vela), Alison e Bruno (ouro no vôlei de praia) e Ágatha e Bárbara (prata no vôlei de praia).
Já o Exército teve participação com os sargentos: Felipe Wu (prata no tiro esportivo), Poliana Okimoto (bronze na maratona aquática) e Rafael Silva (bronze no judô). A Força Aérea também atuou com os sargentos Arthur Nory (bronze na ginástica artística), Maicon Siqueira (bronze no tae-kwon-do), Arthur Zanetti (prata na ginástica artística) e o menino Thiago Braz (ouro no atletismo, salto com vara).Traduzindo:eles conquistaram 68% das nossas medalhas. E para mimisso se chama economia, eficiência, planejamento e disciplina, ou seráque tem outro nome?
Mas há que se ressaltar também, o surgimento de grandes e novidadeiras revelações no esporte nacional como os meninos canoeiros Izaquias Queiroz e Erlon de Souza, que na fé e na raça garantiram uma medalha de prata e duas de bronze para o Brasil. E pensar que há três anos eles buscavam patrocínios em padarias, oficinas e autoelétricas da Grande Salvador. Eo que pensar de Wagner Domingos, o Montanha, que depois de 84 anos colocou o Brasil entre os finalistas no Arremesso do Martelo. Montanha, sem dinheiro para a passagem de ônibus para ir ao centro de treinamento, treinava em sua casa arremessando botijões de gás no fundo do seu quintal. Não é comovente. É sério mesmo.
E o menino Maicom Siqueira (medalha de bronze), no tae-kwon-do uma revelação. E ele que era há três anosum simples servente de pedreiro na grande BH e trabalhava fazendo bicoscomo garçon nos finais de semana para ajudar a família? Rafaela Silva, ouro no judô, que morava em dois cômodos, agora quatro, mas que ainda continua residindo na pobre e violenta Cidade de Deus?
E esta semana a Polícia Federal abriu a “Operação Nemeus” escancarando a corrupção explícita no Ministério dos Esportes para prender um monte canalhas e patifes que superfaturavam e desviavam verbas do esporte. Daí amigos, a nação mais poderosa do mundo em tudo, campeã absoluta nos jogos do Rio 2016, os EUA não tem Ministério dos Esportes.Pode me explicar isso?
Não! Não acho queseja preciso explicar. A coisa é bem mais que fácil e simples. Lá nos EUA e nos países de primeiro mundo a lei funciona e quem rouba vai prá cadeia e não tem as chamadas atenuantes e nem essa aberração chamada foro privilegiado. Lá o civismo, a educação e o esporte são levados a sério. Lá o governo, as universidades e a iniciativa privada são parceiros em grandes projetos. É o que falta no Brasil, mas como sou otimista creio que estamos caminhando nessa direção e um dia a gente chega lá com decência, honestidade e jogo limpo...
As Olímpiadas foram maravilhosas e encantaram os brasileiros e o mundo inteiro. Era um medo que eu tinha.Não se trata do famoso “complexo do vira-lata”, mas confesso que temi e até rezei, porque somos especialistas em papagaiadas e gafes. E quando vi o final da abertura com a “Pira Olímpica” a mais linda e criativa que já vi, levantei-me do sofá e aplaudi emocionado diante da TV. Aí o meu medo ficou por conta da Zika, da Baia de Guanabara, dos assaltos e dos terroristas do Estado Islâmico. A gente que é da paz fica com o coração na mão. Maschega a final e de novo outra sudorese. Novas preces, novos mantras e mentalizações. Vai dar certo!
E torcia, “que se for só a metade do que foi a abertura, já estará ótimo”. E me aliviei e fiquei feliz. O final foi tão bom e até acho que melhor que o começo. E como diz o caipira aqui da nossa querida terrinha...”ara, foi mió de bão”. E no final, até aquela chuva providencial no Maracanã serviu para lavar a alma da gente. E parafraseando o lendário Odorico Paraguaçu, o Bem Amado, “tou de alma lavada e enxaguada”. Semana que vem tem mais. Até lá.