Na Curva do Rio

'Num dô mais conta, não'

'Num dô mais conta, não'

Por Chico Piranha

Por Chico Piranha

Publicada há 9 anos



Quando ainda era mocinho e morava lá em Nova Granada, a famosa “Vila Guebo”, nosso amigo Alemão Eletricista, arranjou um trabalho temporário para defender uns trocos. Foi trabalhar como recenseador do IBGE. Feito o sorteio para definição das regiões e áreas de cada um da equipe, caiu para ele e um outro rapaz, a zona rural do município.


Era um trabalho complicado porque tinham que visitar as colônias, os sítios, enfim, virar o mato pelo avesso, para cadastrar o povo. Cada biboca que dava medo. O transporte era na base da carona nos caminhões leiteiros, tratores, charretes ou até a pé mesmo.


Certo dia, depois andar o tempo todo debaixo de um sol de rachar mamonas, ele chegou num ranchinho de sapé, onde um senhor de idade, amparado por uma grossa bengala, tratava de uma porção de galinhas. Depois de se apresentar, foi convidado a entrar no rancho, onde o ancião lhe serviu um café adoçado com rapadura. Conversa vai, conversa vem, ele começou a entrevista perguntando:

           -- Nome completo, idade e estado civil, por favor.

           -- Sebastião José da Silva. Noventa e dois anos, viúvo.

          -- Quantos filhos?

          -- Onze fios, todos vivos, graças a Deus.

          -- O senhor se lembra dos nomes de todos eles?

         -- Sim, meu fio, tenho a memória muito boa. Anota aí: Marcelino, Mariano, Maria Helena, Maurício, Maroveu, Marcílio, Maristeu, Maronício, Madalena, Merquide e Marinalva.

        Como o velho falava muito depressa, o Alemão não conseguiu escrever tudo. Contou os nomes, e viu que só tinha anotado nove e disse:

       -- Onze filhos... O senhor pode repetir de novo?

      Ele respondeu na bucha:

      -- Posso não, meu fio, num dô mais conta disso, não. Eu já tenho 92 anos e ainda por cima, fiquei viúvo!

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