Claudinei Cabre

Histórias do Tempo do Botinão

Histórias do Tempo do Botinão

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 9 anos



No feriado da próxima quarta-feira, comemoramos mais uma vez o Dia da Pátria.Será que você ainda se lembra dos famosos desfiles cívicos de antigamente. Então, vem comigo. Vamos embarcar na nossa máquina do tempo e “aterrissar” bem no meio da Praça Joaquim Antonio Pereira e revisitar os anos sessenta.  Se você é do Tempo do Botinão, com toda certeza, tem histórias incríveis para contar e muita coisa boa para rememorar.


Vamos por partes. Naqueles tempos, quando a gente voltava das férias escolares de julho, começava todo o planejamento e os preparativos para o grande desfile de 7 de setembro. O clima de animação tomava conta de todo mundo logo nos primeiros dias de agosto, quando a fanfarra começava os ensaios. No final de agosto, os alunos ensaiavam também, marchando pelas ruas de terra batida que ficavam próximas à escola. Era preciso muito treino para todo mundo chegar bem afinado, afiado e fazer bonito na festa de 7 de Setembro. Todo mundo caprichava e se esforçava nos treinos pra fazer bonito no dia do grande desfile.


Para começo de conversa, fazer parte da fanfarra da escola era o sonho da maioria dos meninos. Todo mundo queria participar, mas era um sonho para poucos. A disputa era mais ou menos como um vestibular: muitos candidatos e poucas vagas. Entre as meninas, a coisa não era muito diferente, aliás, a disputa era muito mais acirrada. O sonho da maioria delas ela conquistar uma das poucas vagas de “balizas” e desfilar na avenida, adiante da fanfarra exibindo graciosas e delicadas roupas, executando coreografias bem ensaiadas e fazendo peripécias com aqueles bastões que carregavam. Era mais ou menos como se fossem as “fadas madrinhas” da fanfarra e passistas, como nas escolas de samba de hoje. Eram tempos encantados.


Mas essas disputas entre os estudantes não paravam por aí. Todo mundo lutava por um espaço, o negócio era ganhar visibilidade, ser visto no desfile e quem sabe, com isso, arrumar uma bela namorada. Se não dava para ser da fanfarra, valia ir fantasiado de D. Pedro, de Tiradentes, de um Bandeirante qualquer um, ou até de índio. E se isso não fosse possível, restava ainda a chance de desfilar num carro alegórico, como porta estandarte carregando os pavilhões ou ainda, enfeitar as rodas da bicicleta com papel crepom verde amarelo e sair na frente, puxando o desfile. Era meio complicado, mas a gente se virava bem e no fim tudo dava certo.

Na noite anterior ao grande dia a gente nem dormia direito, tamanha era a expectativa. Acordava bem cedinho e antes das 7 horas da manhã já estava a postos no pátio da escola, prontos para entrar em formação e dali marchar até o centro da cidade. Era o aquecimento. Os desfiles começavam pela antiga Avenida Nove (hoje Expedicionários Brasileiros), entravam pela Rua São Paulo, viravam na Av. Miltom Terra Verdi, seguindo pela Rua Brasil, onde sempre era montado o palanque das autoridades, terminando duas quadras adiante, na antiga Praça Coutinho Cavalcanti, hoje praça Fernando Jacob.


Os desfiles começavam com o carro “abre alas”, sempre trazendo um enfeite enorme com o nome da escola em destaque, seguido do pelotão de alunos com os pavilhões da cidade, dos estados e da nação. Depois vinham as encantadoras balizas, seguidas de perto pelo ruidoso rufar dos tambores e o estridente som dos clarins das fanfarras. E por último, os alunos, cada classe formando um pelotão, intercalados por carros alegóricos, e assim seguiam marchando orgulhosos, “de peito estufado mesmo”, olhando com galhardia para o grande público que retribuía, aplaudindo e  acenando com bandeirinhas do Brasil. Neste dia, o uniforme tinha que estar impecável.


A região central da cidade ficava apinhada de gente e havia até cordão de isolamento, com cordas amarradas aos postes, mantendo o povo nas calçadas. Conseguir um lugar nas proximidades do palanque oficial, onde acontecia a grande performance das escolas, era quase impossível. Muita gente madrugava para garantir um bom lugar.


Lembro que havia até um certo clima de disputa entre as escolas nos dias de desfiles. Todas participavam e se esmeravam trazendo para as ruas todo seu contingente, apresentando temas interessantes, mostrando quadros da nossa história, cultura e costumes. Cada escola querendo fazer mais bonito que a outra. Uma fanfarra querendo ser maior, melhor e mais ruidosa que a outra. E não eram só as escolas que faziam o grande desfile de 7 de Setembro ou do Dia da Cidade. As entidades, os clubes de serviço, as empresas e as colônias portuguesa, italiana e japonesa, também desfilavam mostrando sua cultura, seus trajes típicos e belos carros alegóricos.


Terminado o desfile, os estudantes permaneciam na Praça, todo mundo devidamente paramentado, flertando com alunas de outras escolas, e aqueles que tinham namoradas, esnobavam os amigos, desfilando de mãos dadas; uma ousadia para a época. Bons e incríveis tempos aqueles. E pensar que perdemos toda essa beleza e todo esse sentimento patriótico. Onde será que nós erramos e por que deixamos de fazer dos grandes desfiles cívicos que encantaram gerações por décadas nos Dias da Cidade e da Pátria? Com a palavra os educadores, os historiadores e as autoridades. Semana que vem tem mais. Até lá.

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