
Quem anda aí pelos sessenta, setenta anos, sabe o que foi a política local nos primórdios da nossa Fernandópolis. Eu posso falar daquilo que vi a partir do começo dos anos sessenta, quando então tinha por volta de uns doze anos de idade. Na famosa campanha de 1963, por exemplo, entendia mais ou menos o que se passava, mas me lembro muito bem de algumas passagens marcantes.
A rivalidade entre os dois grupos dominantes da política local é coisa antiga, vem do tempo da fundação da cidade, no final da década de 30, quando estavam surgindo as vilas da Brasilândia, fundada pelo italiano Carlos Barozzi e a Vila Pereira, fundada pelo baiano Joaquim Antonio Pereira. A primeira grande confusão da história aconteceu quando a Vila Brasilândia passou a sediar o cartório de registro civil da região. Contrariadas, importantes lideranças políticas da Vila Pereira invadiramo vilarejo da Brasilândia, à noite, tomaram a repartição, subjugaram o povoado e sequestraram o cartório que acabou ficando sediado em definitivo nas terras de Pereira.
No ano seguinte, em 1944, para colocar um fim na rivalidade entre os moradores dos dois povoados, foi preciso a vinda de um interventor nomeado pelo governo do Estado, e aí Fernando Costa, o interventor, marcou um encontro bem na região onde hoje está sediado o Batalhão da PM, reunindo ali as lideranças e o povo das duas vilas, selando um pacto de paz. Então, as desavenças políticas,não é coisa recente, como imaginam os mais jovens. Essa guerra “surda e absurda”, é uma herança muito antiga, nasceu junto com a cidade e pelo jeito não vai acabar tão cedo.
Na campanha de 63, uma das mais acirradas da nossa história, a disputa era entre os dois mais destacados advogados da cidade. De um lado, o carismático Percy Waldir Semeghini, que até era meio parecido fisicamente com o ex-presidente Jânio Quadros, mas Percy era Ademarista roxo. Ele e seu vice, o comerciante Jacob de Angelis Gaeti, da antiga Loja Vigorelli, tinham do seu lado muita gente importante e o apoio da única emissora de rádio da cidade, a ZYR 90, Rádio Cultura de Fernandópolis, do lendário Moacir Ribeiro. Do outro lado, o famoso criminalista Fernando Jacob, com o apoio do ex-prefeito e médico Ademar Monteiro Pacheco, do então prefeito Edson Rolim, contava com o apoio do serviço som e de alto-falante de Dorival e Chiquito Machado. O páreo era duro e poucos se arriscavam apostar neste ou naquele candidato como vencedor do pleito.
Naquela época, os grandes comícios já na reta decisiva das campanhas, aconteciam na antiga Praça Coutinho Cavalcante ou defronte os comitês dos candidatos. Quando isso acontecia, o trânsito das proximidades era fechado e o povo tomava conta das ruas e das calçadas. E onde havia um grupo de eleitores de um candidato gritando “Percy, Percy, Percy!!!”, logo surgia outra turma gritando mais alto; “Jacó, Jacó, Jacó!!!” e logo os gritos se intercalavam e ai ficava “Percy, Jacó, Percy, Jacó, Percy, Jacó”. Era até bonito de se ver.
Percy ganhou a eleição. Logo seus adversários trataram de conquistar a concessão de uma emissora de rádio, para equilibrar as coisas e fazer oposição cerrada ao prefeito eleito. Afinal, a Rádio Cultura, que havia entrado no ar no dia 14 de agosto de 55, oito anos antes, diziam alguns, havia sido o fiel da balança naquela eleição. E assim, na metade dos anos sessenta, nascia a Rádio Educadora Rural de Fernandópolis, de Leodegário Fernandes de Oliveira, o Filhinho. Daí para frente, por qualquer bobagem, o prefeito Percy corria até a Rádio Cultura e rasgava o verbo contra seus opositores. Momentos depois, no mesmo dia, Pacheco, Rolim ou Jacob iam para a Rádio Educadora e soltavam o palavrório, e estava dado o troco. Assim foi o mandato inteiro de Percy, que ainda teve um ano a mais(tampão), estendendo-se até 1968. E os correligionários de um e de outro lado, festejavam felizes, soltando fogos de artifício, sempre se provocando. Coisa bem de vilarejo, mesmo.
Durante seu mandato, algumas vezes Percy foi afastado, assumindo o vice. Certa vez teve de ser internado às pressas na Santa Casa, onde diziam que passaria por uma cirurgia grave, que corria inclusive risco de morte. Há quem garanta que tudo não passou de uma cortina de fumaça e que na verdade, ele operou de um esporão. Foi preciso de tudo isso, para que não fosse preso algumas vezes. E por conta disso eram tantos os foguetórios, de um lado e do outro, que certa vezo lendário Wilfredo de Souza Nazareth, das Casas Santa Rita, comentando com seu amigo Warner Casare, disse que não sabia se aquele ultimo foguetório era porque o Percy havia sido solto, ou se porque havia sido preso de novo. Tempos rudes.
Em 1968, a oposição elegeu o empresário e cafeicultor Leonildo Alvizi. Naquela época as brigas políticas cederam um pouco, abrindo espaço para a discussão de um problema grave, a falta de água, que castigava a cidade e prejudicava todo mundo. No mandato seguinte, de Antenor Ferrari, a cidade viveu um “boom” de desenvolvimento com a construção da Usina de Água Vermelha. No entanto, os ânimos que pareciam haver serenados publicamente naqueles tempos, se mantinham latentes e nos bastidores, os adversários continuavam mais beligerantes do que nunca. Na verdade, a luta continuava e era como uma perigosa bomba relógio, armada e pronta para explodir há qualquer momento.
Percy voltou a candidatar-se para prefeito em 1976, contra o então jovem professor e advogado Miltom Edgar Leão. A cidade se dividiu de novo ao meio e os ânimos se exaltaram novamente. Estava declarada a guerra aberta entre a turma do “Gato” e a turma do “Leão”. Foi uma das campanhas mais acirradas e terríveis da história, onde algumas famílias se dividiram e alguns amigos, de um momento para outro, se tornaram inimigos declarados. Dois dias antes da eleição, o comitê de Leão, ao lado da Casas Lisboa estava praticamente largado às moscas, seus correligionários se mostravam cabisbaixos e desolados. Enquanto isso, na Av. Amadeu Bizelli, entre as ruas Rio de Janeiro e Espírito Santo, onde Percy morava, ocorria o oposto e o local fervilhava de tanta gente. A fatura praticamente estava liquidada. Percilianos já comemoravam a volta do velho líder ao Paço Municipal. No entanto, uma discussão ocorrida na véspera, entre Percy e seu vice, o empresário Raul Gonçalves, acabou resultando na renúncia do vice. O assunto da discórdia vazou, a história foi ampliada pelos adversários, que disseram inclusive, que saiu até revolver na conversa. Isso foi o estopim, e Percy acabou perdendo na véspera uma eleição que já estava ganha.
Quem votava no EELAS, aquele dia, teve que caminhar por um verdadeiro corredor polonês, com as torcidas de um e de outro candidato se provocando, se xingando, uns miando outros urrando, cada turma numa calçada, contidas por cordas, separadas pelo Corpo de Bombeiros e atropa de choque PM no meio da Av. Milton Terra Verdi. Nesse dia, os bombeiros se viram obrigados a abrir as mangueiras com jatos d’água para conter alguns mais exaltados, ao mesmo tempo que a PM andou soltando algumas bombas de efeito moral na região central da cidade. Essa história é longa. Prometo que continuo o assunto. Semana que vem tem mais. Até lá.