Na recente assembleia geral das Organização das Nações Unidas (ONU), Barack Obama, em seu último discurso como presidente dos Estados Unidos, afirmou que, “Hoje em dia, uma nação rodeada por muros só conseguiria encarcerar-se a si própria”.
Do outro lado do oceano, o Reino Unido divulgou que irá construir um muro ao longo da estrada de acesso ao porto de Calais, no Norte da França, para impedir que migrantes atravessem o Canal da Mancha. O ministro do Interior britânico, Robert Goodwill, em seu pronunciamento disse a seguinte frase: “Nós fizemos a cerca e agora vamos erguer o muro”.
Muitas cercas e muros têm sido levantados nas fronteiras de países europeus tentando frear a entrada de refugiados, em consequência do surto migratório para a Europa, causado principalmente pela instabilidade política provocada pelo terrorismo e guerras civis em países do Norte da África e também a recusa de outros países do Golfo Pérsico em receber esses refugiados.
Em uma outra notícia publicada recentemente, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker “disse que a Europa não se constrói fazendo cercas e muros, mas levantando pontes”, e lembrou que estas barreiras podem ser superadas, além de “não solucionar os desafios” que a União Europeia enfrenta.
Sejam quais forem as justificativas de cada nação, econômica, cultural ou xenófoba, cercas e muros são erguidos, assim como outros que já existem nas fronteiras de tantos outros países, pelas mesmas razões mencionadas ou ainda por outras, sem entrarmos no mérito do certo ou errado, justo ou injusto.
Igualmente, as pessoas constroem cercas e muros ao seu redor. Mesmo que invisíveis, porém perceptíveis, conseguem alcançar seus propósitos: impedir que outras pessoas sem aproximem e adentrem em seus mundos, no caso das cercas, e que, além disso, não possam ver o que ocorre no seu interior, sendo muros.
Também não quero aqui discutir as razões, particulares ou não, que cada indivíduo teria para explicar o motivo de sua construção, seja ele uma justificativa ou uma desculpa. Talvez o principal sentimento inerente a tal ato consista em autoproteção.
A autoproteção pode ser um importante instrumento de defesa contra as “coisas” mundo moderno, entra elas o individualismo que, quem sabe mais exacerbado hoje, não é uma exclusividade do nosso tempo. Ele sempre existiu, de formas diferentes ao longo da História, e sempre foi parte integrante do ser humano. O que parece um paradoxo, a pessoa isolar-se para proteger-se do individualismo, dentre os outros “fenômenos”.
As barreiras podem proteger, mas também isolar. Ou ainda pior, mais que afastar do mundo, são capazes de criar outro mundo. Elas podem proteger dos “perigos” reais e imaginários e também podem impedir que o socorro se aproxime.
Um muro construído com reforço, bem vedado, que circunda o perímetro desejado, frustra quase todo tipo de invasão.
No entanto, se, de alguma forma, alheia à vontade do construtor, o recinto for enchido com água, há um grande risco do habitante do esconderijo particular morrer afogado.