Na Curva do Rio

Quarenta e tantos anos depois

Quarenta e tantos anos depois

Por Chico Piranha

Por Chico Piranha

Publicada há 9 anos



Tem coisas nessa vida que só aconteciam com o famoso e saudoso Tio Sanin, que faz alguns anos, pegou a malinha e foi para o andar de cima antes do tempo combinado. Certa ocasião, uns quarenta e tantos anos atrás, quando ainda estava em plena forma, ele gostava de pescar no Córrego do das Pedras ali pelas bandas de Santa Izabel do Marinheiro.

            Igual agora, no domingo, tinha eleição. Ele e os amigos combinaram todo mundo de deixar a tralha arrumada. No sábado à tarde providenciaram as iscas e até o costumeiro garrafão de água que passarinho não bebe. Domingo bem cedinho, iam madrugar na fila de votação, fazer o serviço e se mandar prá beira do brejo.

            Isso foi lá em 1963, campanha política das mais disputadas, muita gente brigando com vizinho e até com parente, resolveram que sumir prá beira do rio era até uma boa saída pra não arrumar confusão e tomar uns engasga-gatos, porque na cidade tudo que era buteco da cidade tava fechado. E lá foi o povo prá beira do “córgo”.

            E foi aí que o Sanin, por um desses descuidos da vida acabou perdendo o seu relógio de bolso, uma jóia rara, presente de estimação de seu velho avô. Apesar da vegetação rala, quase toda rasteira, por mais que “campeasse” e virasse o mato do avesso, não encontrou o precioso objeto. Inconsolado, voltou para casa e prometeu que nunca mais voltaria a pescar lá nas Pedras.

    Passaram-se os anos -vinte anos depois, acho que até bem mais!. Um belo dia, os velhos amigos resolveram convidar o Tio Sanin para relembrarem os bons tempos, quando ainda eram bem moços e o levaram para uma pescaria no velho e famoso Córrego das Pedras. Combinaram o dia, até escolheram o mesmo local, onde décadas atrás, ele havia perdido seu precioso relógio. Quando chegaram no lugar, ficaram surpreendidos da forma como tudo estava mudado. Aquela vegetação que anos atrás era uma pequena capoeira, agora havia virado quase uma floresta, umabela mata fechada com altas e frondosas árvores.

           Entusiasmado com toda aquela mudança da paisagem, com um certo sacrifício, ele subiu em uma árvore frondosa, com grandes galhos apontando para o infinito. Do alto, pôde avistar um panorama deslumbrante que se descortinava sobre um céu de brigadeiro. De repente, sua atenção foi desviada para uma coisa brilhante na ponta de um dos galhos da tal árvore onde havia trepado. Curioso e intrigado com aquela coisa brilhante, ele se esforçou para alcançar o objeto e, quando chegou perto, quase que despencou lá do alto, tamanha a sua alegria e emoção.

           Acredite se puder, mas a tal coisa brilhante pendurada no alto da árvore, era nada mais, nada menos que o velho relógio Eska de estimação, com o cordão enroscado no galho do grande Jatobá. E melhor ainda, o bichão tava novinho em folha, funcionando que era uma beleza e sem atrasar um segundo.

últimas