Histórias do T

Cientistas de fundo de quintal

Cientistas de fundo de quintal

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 9 anos



Na quarta-feira, dia 12, comemoramos o Dia da Criança, e portanto, lá vamos nós de novo em nossa máquina do tempo, aterrissando no meio das doces manhãs de nossa infância. Como recordar é viver de novo, mergulhar nas melhores lembranças do nosso passado faz um bem danado, não só para exercitar a memória, mas também para nossa alma. Vivemos os anos dourados de cabo a rabo, e isso, convenhamos, foi um privilégio, não é mesmo?


Será que você ainda se lembra das peraltices e das brincadeiras daqueles tempos? Lá pela metade dos anos cinqüenta, por exemplo, não existiam muitos brinquedos como hoje em dia. E o que havia, custava o olho da cara, pelo menos para meus pais e os pais da maioria dos meus amigos. Então, para nos divertir, a gente tinha que colocar a cuca para funcionar, usando a imaginação, a criatividade. Nós inventávamos nossos próprios brinquedos, partindo de coisas muito simples. Com um pedaço de madeira e dois carretéis de linha Corrente, logo fabricávamos um caminhãozinho e lá íamos nós buzinando, nas curvas das estradas da nossa imaginação.


Naqueles tempos, as brincadeiras mais famosas entre a criançada eram o jogo de bolinhas de gude, passa anel, roda pião, cantigas de roda, empinar pipa, brincar de caminhãozinho, rico-trico, gringalha, salva-pega, bola de meia, bola queimada, faroeste, pular corda, esconde-esconde, corrida de saco, corrida equilibrando um ovo na colher, mãe da rua, campeonato de cuspe à distância, empurrar pneu ou um aro qualquer, caçar borboletas e vagalumes, bater bétias, brincar de luta livre, de circo, de índio e mocinho, enfim, passávamos horas e horas, dias e dias, jogando ou brincando na rua, sem um pingo de preocupação e com aquela liberdade única e gostosa de estar com o grupo de amigos, envolvidos em alguma atividade prazerosa.


Na sombra de uma grande árvore qualquer, no quintal da nossa casa ou da moradia de um amigo, sempre que a turminha se reunia, de repente, do nada, logo nascia uma cidade, com suas ruas e avenidas, pontes e  túneis. Lembro que prá construir os túneis, a gente pegava uma garrafa vazia, cobria com um monte de terra bem úmida e socava bem. Depois girava a garrafa com cuidado e a retirava com jeito, para não desbarrancar. Pronto, estava feita a ponte, o túnel!


No dia seguinte, no lugar da cidade, surgiam as fazendinhas. Cada menino ou menina tinha a sua. Mas, bom mesmo, era quando a gente encontrava uma cerca de arame farpado cheia de ramas de buchas verdes e bem novas. Ali estava a matéria prima para nossas invenções. As buchas verdes, sempre as menores, com alguns palitos ou gravetos espetados, num passe de mágica viravam vaquinhas, boizinhos e bezerrinhos, que eram colocados nos currais construídos com cacos de telhas, tijolos e toquinhos. E quem tinha a maior boiada no curral ou na pastagem da propriedade, era o fazendeiro mais rico da região! Esse era o banco imobiliário da minha infância.


A pobreza material daqueles tempos não era um problema. Ao contrário, servia para estimular e aguçar nossa imaginação, estimular a criatividade nos levando ao improviso, na produção dos nossos próprios brinquedos e brincadeiras. Cada um de nós tinha dentro de si um pouco de “Professor Pardal!” Era gratificante quando a gente terminava de criar algo novo. A criançada se juntava em festa para ver de perto, tinha até comício de inauguração. E então, quando a coisa funcionava aí sim era uma festa de verdade!


No quintal da casa dos meus pais, por exemplo, junto com meus irmãos e alguns amigos, construímos uma base de lançamento de foguetes. Tinha até guindastes de acoplagem e lançamento, Para construir o foguete a gente arranjava um cano de conduite bem resistente, de uns vinte centímetros e mandava a peça na oficina de torno e solda para fazer o bico da nossa astronave espacial, onde era encaixada a cápsula, deixando um espaço para acomodar o pequeno paraquedas, feito com um lenço bem fino e velho, cuidadosamente dobrado e preso à capsula por fios de barbante cordonê. Naqueles dias nossos pais viviam de cabelos em pé!


Isso faz tanto tempo que não nem me lembro mais da fórmula do combustível, mas a gente colocava pólvora misturada com enxofre em pó, socava bem a parte debaixo do cano do foguete, que funcionava como um tanque. A ignição era feita com dois fios elétricos, que acionados por um interruptor, provocava um pequeno curto circuito e as faíscas atingiam o combustível, provocando o lançamento por propulsão. Havia inclusive, a famosa contagem regressiva para o lançamento. Claro que no dia do lançamento a gente convidava a rua inteira. Era um acontecimento!


O foguete às vezes não subia, falhava e dava chabú. Quantas explosões por falhas de logística ou de erros na fórmula do combustível. Mas quando subia, deixando atrás de si aquele rastro de fumaça branca, todo mundo corria para debaixo do telhado da varanda, porque desde pequeno a gente já sabia que tudo que subia, obviamente caia. Bom mesmo era quando tudo dava certo, e quando começava a curva da queda da nossa nave espacial, a cápsula, propositadamente mais leve, sempre ficava para traz do corpo do foguete que descia de uma vez, e aí o paraquedas se abria e ela descia planando suavemente como uma pluma no ar. Foi a partir dessas experiências de cientistas de fundo de quintal, que um dia nossa turminha da Escola “Afonso Cáfaro” conseguiu um honroso terceiro lugar no disputadíssimo campeonato de lançamento de foguetes, na Feira de Ciências do antigo e famoso Instituto de Educação. Impressionante!


Ainda vou contar aqui como a gente fabricava nossos telefones, jangadas e os incríveis carrinhos de rolimãs! Semana que vem tem mais. Até lá.

últimas