Minha professora do primeiro ano, quando ainda era chamada de primeira série, foi a Dona Cida. Guardo ela na lembrança depois de tantos anos. Quase todos se lembram da primeira professora como se lembra do primeiro amor. Aliás, foi naquele mesmo ano que encontrei meu primeiro amor pueril, a Marissi, filha da Dona Cida.
Infelizmente, as feições das duas não estão mais tão claras na minha mente, mas a memória afetiva permanece ainda no meu coração.
A escola que estudei até o final do ensino fundamental já não existe mais, chamava-se Sólon da Silva Varginha, onde hoje é a Etec. Grande parte da minha infância passei lá. Também me lembro de outros professores daquela época. De Ciências, a Dona Leonete, que apelidei de Leãonete (agora ela vai saber), porque era muito brava. De Matemática, a Dona Renir, também apelidada por mim como Ruimnir (ainda bem que não podem mais baixar minha nota). Os apelidos foram dados em razão do rigor que as duas colocavam no ofício do magistério. Apesar disso, o que realmente ficou marcado para mim foi a competência com que elas nos ensinavam. Estavam entre as melhores professoras e, exatamente por isso, sempre lembradas.
Lembro-me também de outro professor de matemática, Seu Lima. Lecionou nos dois últimos anos dos oito que passei naquela escola. Foi quem me ensinou a inestimável regra de três, simples e composta. Austeridade e bom humor se misturavam nas suas aulas.
Outras duas professoras foram fundamentais em minha escolha futura. Lembro-me das aulas de português e da sabedoria da Dona Maria Teresa Betiol. Foi quando comecei a gostar das letras, sempre incentivado por ela e por suas aulas de redação. Também me lembro que foi quando tive que dar uma aula sobre interjeição. Aprendi tanto sobre o assunto que nunca mais esqueci.
Lembro-me ainda de um fato negativo. Naquela época, tinha uma única professora por ano até a quarta série, como ainda é hoje, até o quinto ano, e, quando entrávamos para a quinta série, era uma grande mudança. Várias matérias e vários professores. Sem mencionar dois alunos repetentes que nos punham medo sobre a dificuldade que seria tudo aquilo. E foi naquele ano que entrou na sala a professora de inglês, deixando uma marca desagradável na minha caminhada escolar. Coisa boba, mas sua falta de empatia ficou registrada em uma frase que nunca esqueci: “Não sou doce nem bala para gostarem de mim”. Talvez por falta de experiência ela não soubesse diferenciar rigidez de antipatia.
Mas, na metade do ano seguinte, na sexta séria, fui salvo pela nova professora de inglês, Emily. Não somente salvo, mas direcionado pelas suas palavras proféticas: “Você tem jeito de quem vai estudar letras”. Lembro-me claramente, até hoje, da certeza com que ela me disse aquilo. Também me lembro que em sua primeira aula levei uma “chamada”, como se dizia quando era repreendido, porque não soube traduzir a frase de um exercício.
O ocorrido, no entanto, não foi para mim um desencorajamento, ao contrário, foi um grande estímulo, achei que ela estava coberta de razão, como poderia falar uma coisa que não sabia o significado. Esse foi o grande impulso para me dedicar ao inglês. Sem falsa modéstia, tornei-me um excelente aluno. Além de todos os incentivos de Dona Emily, ao encerrar a oitava série, e deixar aquela escola, fui presenteado por ela com vários livros. A profecia dela foi realizada. Fiz o curso de letras e fui dar aulas de inglês.
Para finalizar o capítulo daquela escola, preciso falar de outra pessoa que guardo na lembrança. Primeiro, porque foi minha diretora no Sólon por muitos anos, Dona Maria Luiza Guimarães. Amável e rígida ao mesmo tempo, colocava ordem, num tempo em que professores e diretores não eram só temidos, muito mais que isso, eram respeitados. E, ainda, pela feliz coincidência de ter sido minha diretora também na Faculdade. Pessoa com quem brigamos muito, dialogamos demais e para quem fizemos uma serenata, depois de percorrer as casas de todos nossos professores, finalizando nosso roteiro, para marcar o encerramento do curso. Séria, competente e de boa índole. Assim sempre foi Maria Luiza.
O colegial, ou ensino médio, atual denominação, foi um tanto tumultuado para mim, por inúmeros acontecimentos em minha vida. Nem por isso menos memorável. Marcado pela rebeldia da adolescência, inúmeras novas grandes e inestimáveis amizades. Tudo isso vivido na EELAS, quando aquelas salas, do enorme prédio que ainda hoje resiste, eram todas ocupadas, apinhadas de alunos.
Muitos professores daquela escola estão em minhas lembranças. Talvez possa pecar ao deixar de citar nomes que não venham à memória nesse momento, mas que, com certeza, estão no meu coração, no compartimento da gratidão. Dentre eles o Professor Amadeu Pessota, mais tarde meu mestre também na faculdade. A professora Antonieta Aguiar, dinâmica, inovadora, incansável e exigente, nos lançava em muitos desafios, escrever, decorar, encenar e, sobretudo, pensar.
Gravadas em minhas lembranças também estão as aulas de Educação Artística da Dona Bila. Professora e ser humano excepcional. Sabia conduzir com maestria tantos as difíceis aulas de geometria como as de trabalhos manuais. Fez aflorar com simplicidade e extrema competência a veia artística de muitos alunos. O carinho e a proximidade eram também suas marcas. Sempre chamada pelo apelido, talvez como reciprocidade a sua afeição por todos. Somente soube seu nome muitos anos depois: Maria Aparecida Trevisan.
A faculdade colocou no meu caminho tantos outros mestres. Além do Professor Amadeu, como já mencionei, figura icônica do ensino e do processo eleitoral (em outros tempos) de nossa cidade, que nos introduziu ao latim. O Professor Durval Ramanholi, com a difícil tarefa de nos apresentar a extremamente teórica linguística, cuja competência superou os possíveis obstáculos, não só apoiado pelo título de doutor, muito mais pelo espírito humilde e forte, que, sem fazer alarde, sutilmente, sempre soube construir pontes.
Lembro-me, ainda, com clareza, das aulas da Professora Eli Guerra, que, aos sessenta e tantos anos, viajava de Rio Preto até Fernandópolis toda semana para nos brindar com sua sabedoria desafiadora, ao mesmo tempo que fazia seu doutorado. Ela fez uma revolução em nossas cabeças. Nunca mais olhei para um texto da mesma forma como antes. Entrei de vez no universo paralelo dos significados e significantes escondidos nas palavras.
Deixei para mencionar ao final dois outros professores que instituíram suas marcas na minha jornada. Professor Paulo Custódio e Professora Eliana Jacob. Foram meus mestres, depois amigos e, mais tarde, colegas de trabalho, quando lecionamos na mesma faculdade.
O Paulo sempre foi exemplo de entusiasmo e determinação. Profissional competente e excelente amigo. Irrequieto no fazer e no pensar e, por isso, um fazedor de ideais.
A Eliana foi quem mais me incentivou a lecionar. Professora dedicada e de capacidades múltiplas. Exemplo de ser humano, de gente, como deveriam ser as pessoas. Tem a extraordinária capacidade de enxergar as qualidades dos outros, muito mais que os defeitos. Mais ainda, consegue perceber o humano em outro ser. Compreendeu, como poucos, quem eu realmente era.
Lembro-me de muitos outros professores que passaram na minha vida, todos importantes, alguns deixaram um pouco de si, outros um tanto mais. Não há aquele que não tenha deixado algo. Se a ausência de alguns nomes nestas já extensas linhas tenha sido uma injustiça, a justiça divina e das leis do universo trarão, se já não trouxeram, a recompensa pela partilha de seu saber.
Mais importante do que as recordações foi o legado deixado por todos os professores, meus e seus, lembrados ou não. Ainda tenho esperança de que, um dia, o professor receba da sociedade o verdadeiro reconhecimento do importante papel que exerce dentre todos os demais ofícios. De que tenha o respeito que merece e seja colocado no lugar de destaque de onde nunca deveria ter sido tirado.
Realmente espero que, no futuro, professor não seja apenas uma lembrança.