Como a Ciência já comprovou, a América do Sul e a África pertenceram a um mesmo continente chamado Gondwana (lê-se gonduana), que se fragmentou há milhões de anos (figura 1). A prova disso é o encaixe da costa leste do continente sul-americano com a costa oeste do africano, que mais lembram gigantescas peças complementares de um quebra cabeça. Porém, o que poucos sabem é que esse fenômeno geológico possui relação com a fundação da cidade de Fernandópolis e demais municípios da nossa região.
Vamos à explicação. Além da América do Sul e da África, o supercontinente Gondwana também era composto pelos atuais territórios da Antártida, ilha de Madagascar, Oceania (e muitas de suas ilhas) e Índia, e começou a fragmentar-se há 135 milhões de anos devido à movimentação das placas tectônicas (grandes placas rochosas que perfazem a superfície do planeta). O deslocamento dessas placas tectônicas, que ocorre até hoje, provocou o surgimento do Atlântico Sul (parte do oceano Atlântico que banha a costa brasileira) e também um processo de fraturas no continente sul-americano, ocasionando vulcanismo, que derramou lava basáltica (em alguns locais superando a espessura de um quilômetro) na superfície. Essa lava, ao se esfriar, originou a conhecida rocha escura chamada de basalto, presente em algumas pedreiras da região, como as localizadas nos municípios de Valentim Gentil e Monções. As inúmeras utilidades dessa rocha são bem conhecidas, como a produção de brita, que serve para pavimentação asfáltica das ruas, na construção civil como agregado de concreto e, em pequenos blocos, destina-se ao calçamento das vias públicas (são aquelas pedrinhas pretas das calçadas). Esse conjunto de rochas de basalto recebeu o nome de Formação Serra Geral, que apresenta uma curiosidade não relacionada com o tema deste artigo – a maior jazida de ametista do mundo é encontrada nas rochas da Formação Serra Geral, na cidade de Ametista do Sul (RS) – assunto que será abordado em outro artigo.

Figura 1: concepção artística da fragmentação do supercontinente Gondwana, iniciada há 135 milhões de anos (fonte: o autor, 2011).
O peso desse volume gigantesco de basalto promoveu afundamento do terreno, originando uma bacia sedimentar (depressão na superfície), chamada de Bacia Bauru, que compreende, atualmente, toda a região Noroeste do estado de São Paulo, outros estados do Brasil e alguns países vizinhos.
Essa depressão (Bacia Bauru) começou a receber sedimentos (areia, argila e silte) de suas bordas que formaram o conjunto de rochas sedimentares chamado de Grupo Bauru (essas rochas são mais conhecidas popularmente em nossa região pelo nome de piçarra). Foram nessas rochas que os paleontólogos encontraram fósseis nas cidades de Fernandópolis, Jales, General Salgado e Auriflama, como dinossauros e crocodilos pré-históricos – uma das descobertas mais interessantes em nossa região foi a de um crânio de crocodilo pré-histórico, extinto há milhões de anos, chamado Baurusuchus pachecoi (lê-se baurussucus pachecoi) no município de Jales (este crocodilo podia alcançar 4 metros de comprimento), no ano de 2006, de cuja pesquisa tive a oportunidade de participar. Esse crânio tem idade aproximada de 85 milhões de anos (figura 2).

Figura 2: crânio fóssil de crocodilo pré-histórico denominado Baurusuchus pachecoi com idade aproximada de 85 milhões de anos encontrado em Jales – SP (fonte: o autor, 2006).
Ao longo de milhões de anos, a erosão promovida pelas águas das chuvas, ácidos orgânicos de liquens, ação do vento e outros agentes naturais foram desgastando essas rochas (basalto da Formação Serra Geral e rochas do Grupo Bauru) e colaboraram com a formação do solo nesta região. Esse solo fértil foi explorado, no passado, na produção de café e, atualmente, serve as pastagens na criação de gado bovino, no plantio de cana-de-açúcar, seringueiras, bananais e outras culturas. A produção de café, nas décadas de 30 e 40 do século XX, desenvolveu-se muito bem por aqui devido à presença desse solo fértil e, com isso, famílias advindas de outras localidades se deslocaram para a nossa região para trabalharem no plantio dessa cultura e influenciaram na fundação de cidades como Fernandópolis, Jales, Votuporanga e muitas outras na região.
Ademais, no intuito de expandir as fronteiras agrícolas, o governo construiu a estrada de ferro (antiga Estrada de Ferro Araraquarense – EFA), que corta a região e que colaborou com o rápido desenvolvimento desses municípios. Já naquela época, quando essas cidades foram fundadas, à medida que construíam a estrada de ferro, operários encontravam fósseis de dinossauros e crocodilos pré-históricos após o rompimento dos paredões de rochas situados pelo caminho. Todos esses fósseis encontrados em nossa região têm a idade estimada de 85 milhões de anos, como uma costela de 1,20 m de comprimento pertencente a um titanossauro (gigantesco dinossauro herbívoro que podia alcançar 12 metros de comprimento e 6 metros de altura), encontrada, recentemente, por um de meus colegas de profissão, na cidade de Auriflama (figura 3).

Figura 3: A - acima uma costela de dinossauro chamado de titanossauro com 1,20 m de comprimento destacada pela seta vermelha (fonte: o autor, 2008); B – Concepção artística de um esqueleto de dinossauro titanossauro com a referida costela destacada em amarelo (concepção artística: Rodrigo Miloni Santucci).
É curioso notar que o processo de formação do solo em nossa região, que no passado foi intensamente explorado na produção de café e, com isso, influenciou na fundação de muitas cidades regionais, como Fernandópolis, relaciona-se diretamente com o fenômeno geológico que levou, e ainda leva atualmente, à separação da América do Sul da África e a formação do oceano que banha a costa brasileira.
Portanto, quando observar nas calçadas da cidade aquelas pedrinhas pretas (que há 135 milhões de anos foram lava vulcânica que veio das profundezas) e quando vires o mar na costa brasileira, lembre-se de que essa pedra e o nosso mar devem suas formações a um processo geológico que também influenciou a formação do solo na região de Fernandópolis, tão propício para o cultivo do café, que atraiu famílias de localidades distantes para a nossa região, que aqui se instalaram e influenciaram na fundação de muitas cidades do Noroeste Paulista.