
Grata surpresa. Essa é a expressão mais adequada.
Semana passada desfrutava do ócio, enquanto assistia, meio em vigília, meio sonado, ao Jornal da Globo News. De repente vi o rosto de Bob Dylan. Inicialmente pensei tratar-se de notícia de seu óbito. Felizmente não.
Mais tarde me dei conta que era o anúncio de seu nome como novo “Prêmio Nobel de Literatura”.
Como? Não é escritor! Foi a primeira coisa que pensei.
No sábado ouvi a argumentação de Paulo Henriques Brito, poeta e tradutor, aliás, responsável por verter a única obra publicada por Dylan: o poema-prosa “Tarântula”. Em seguida o depoimento do também poeta e tradutor Claudio Willer, ambos argumentaram que sua obra produzida na linguagem de letras musicais possui imensa riqueza literária. Assim, ainda que em outra linguagem, por ser literariamente rica, Dylan é escritor. Portanto, com uma produção extremamente relevante, é justo o laurel.
Curioso: dias antes, minha filha usara o mesmo raciocínio que os poetas, para corroborar com a premiação. Mais um motivo para me orgulhar da Isabelle.
Escrevera, há um ano ou dois, uma coluna na qual abordava certa analogia entre Bob Dylan e Chico Buarque de Holanda.
Hoje, a título de homenagem e alegria, atenho-me ao homem de Minnesota, mesma terra de outro escritor agraciado com o Nobel: Sinclair Lewis.
Bob Dylan traz consigo a literatura desde o pseudônimo: Dylan é uma referência ao poeta galês Dylan Thomas, de grande riqueza e densidade.
Mostrou-se camaleônico desde o início. Sua carreira tem início com o folk song, cuja referência maior é Woody Guthrie. Lendário cantor e compositor que peregrinava pelos Estados Unidos com um violão no qual estava escrito: “Essa é uma máquina de matar Fascistas”. Era a voz da América pós-depressão.
Acompanhado de violão e gaita, suas canções retumbavam nos corações da juventude, destilando ira à opressão, à violência, à guerra e às injustiças. Basta ouvir “Blowin’ in the Wind”.
Brusca guinada: empunhando guitarra elétrica, para ira de muitos, apresenta pérolas como “Like a Rolling Stone”, “Mr. Tamborine Man”.
Nos anos setenta, produz discos ricos em referência literária, especialmente Allen Ginsberg e Jack Kerouac.
Homenageia Rubin Carter Hurricane e luta por sua libertação.
Converte-se em cristão e lança “Slow Train Coming” marcadamente religioso.
Participa de concertos beneficentes. Apoia causas internacionais pela liberdade e contra a opressão. Feroz pacifista, se junta à “Anistia Internacional” em shows pelo mundo.
Pouco antes da perda do gigante Roy Orbison, participa do “Traveling Wilburys”. Obra-prima.
Continuou cantando e encantando. Nunca se escondeu ou se omitiu. Sempre ousou.
Participou do documentário “No Direction Home”, dirigido por Martin Scorsese.
Quer saber: É justo.
Bob é escritor. Grande literato. Ama e cuida da palavra e da linguagem. Esforça-se por ela.
Thank you Bob!