Não comungo da crença de que se vivia melhor no passado. Muitos são tentados a supor esse mito. Lindamente mostrado na película “Meia Noite em Paris”, de Woody Allen. É um equívoco pensar que por tratar-se de outro período, o mundo era melhor. Discordo. O mundo é ruim. Sempre foi ruim. Todavia, não imputemos a ele – o mundo – a maldade e o fracasso. O protagonista responsável nomina-se “ser humano”.
É esse projeto malsucedido o criador e “gestor” (odeio essa palavra) da miséria do próprio humano. Uso o conceito miséria não apenas no sentido econômico, sobretudo metafísico e ontológico. Como exclusão de qualquer princípio ético. Total desamparo existencial.
O resultado: a cólera. Pior que a epidemia cujo nome é evocado no masculino, a cólera sobre a qual vos falo degenera-se na intolerância, na ganância, na mesquinhez. “... Eu vos trago o Mini-Homem...” (Hilton Luiz).
Essa cólera é vivificada por meio do ódio com que a manada humana age, ao incomodar-se, por exemplo, com o fato de que há aqueles que discordam da moral e “pensamento” gregários. Recusa-aos. Por isso é admoestado física, política, até mesmo policialescamente.
A cólera rege a vida dos “trumps” e “bolsonaros” da vida, os quais são nutridos pelo rancor, pelo resentimento, pela cobiça, pois são incapazes de conquistar lícita e eticamente, ainda que evoquem esses atributos.
O conceito “Amor” tornou-se desprovido de conteúdo, para lembrar o querido Aristóteles, pobre de substância. Banal, travestiu-se em ridículo vocativo de casaisinhos pseudamente apaixonados.
Amor é palavra para sair das bocas e penas de Camões, Shakespeare, Santo Agostinho, para citar alguns monumentos.
Além deles, do querido Gabriel Garcia Marques, cuja obra “O Amor nos Tempos do Cólera” é uma das preferidas de minha amada mulher.
Sim, posso me referir a ela como “Amor”, “Amada”, pois, redimensionou-me o teor e o sentido do mesmo. Com ela, aprendi seu verdadeiro significado. No cotidiano difícil desses mais de vinte e dois anos juntos. Descobri e tenho a descobrir mais.
Sim, o ser humano fracassou e a humanidade não deu certo. Porém, há aqueles seres especialismos, luminosos que transcendem a mesmice e a obviedade que existem para nos ensinar e nos engrandecer.
Fortaleço-me nesse sentimento. Por ela e para ela.
Talvez um dia esteja à altura do mérito e da generosidade da reciprocidade que recebo.
Jacqueline, a ti, com AMOR.
PS: recebi com estranheza e espanto a notícia do cancelamento de assinaturas desse rotativo em face da discordância do teor de minhas colunas.
Sugiro que ponderem. É justo eximir-se do prazer de receber um periódico de conteúdo inquestionável? Somente por discordar de um texto, de uma ideia, uma postura de um simples articulista?
Punir-se por isso, perdoe-me, é um erro.
Além disso, escrevemos para suscitar questões, sobretudo dúvidas. É ela – a dúvida – que deve nos pautar rumo à luz, ao conhecimento, à construção de opiniões. Entendo, é muito ruim lermos ou ouvirmos coisas das quais discordamos. No entanto, não serão elas que podem nos levar a pensar?
Não estamos nos movendo pela cólera, ao simplesmente recursarmos ouvir ou ler algo, pelo simples fato de não concordarmos?