Todas as coisas da criação são filhos do Pai e irmãos do homem. Deus quer que ajudemos aos animais, se necessitam de ajuda. Toda criatura em desgraça tem o mesmo direito a ser protegida” (frase atribuída a São Francisco de Assis).
Por respeitá-los, São Francisco de Assis é conhecido como o santo padroeiro dos animais. E, nós? Será que respeitamos os animais?
Devemos respeito aos animais, pois, desde os primórdios da humanidade, sempre dependemos deles para garantir a nossa sobrevivência. Quando o homem era caçador – coletor utilizou a carne dos animais como valiosa fonte de proteínas, sua gordura como fonte de energia e seu couro como matéria – prima para suas vestimentas. Quando o homem abandonou a fase de caçador-coletor e passou a ser agricultor, há aproximadamente 10.000 anos, os animais foram fundamentais nesta fase da nossa história, pois sua força muscular foi utilizada no transporte, no arado, na moenda e, em outras tarefas, até então, realizadas pela força humana.
Para atender as demandas da humanidade, cuja população multiplicou-se em número, de forma vertiginosa, após o desenvolvimento da agricultura, os seres humanos domesticaram um número restrito de animais e passaram a criá-los em escala global, tanto que hoje se estimam que existam, no mundo, um bilhão de ovelhas, um bilhão de porcos, mas de um bilhão de cabeças de gado e 25 bilhões de galinhas. Sem querer criar polêmica com os adeptos do veganismo (movimento de pessoas que são contra a exploração dos animais e do meio ambiente por meio da agropecuária), também é inevitável que estes animais domesticados sejam sacrificados para servir de alimento e fornecer matérias-primas para obtenção dos mais variados produtos. Até aí, tudo bem. O problema está no modo como o criamos que, não raramente, ocorre à custa de muito sofrimento. Não cabem nestas poucas linhas os exemplos de sofrimento causados pelo homem aos animais, porém, vamos citar alguns casos extremos que ficaram famosos devido ao método cruel de manejo e criação.
Existe uma iguaria muito famosa da culinária francesa chamada de foie gras (pronuncia-se “fuagrá”, e, em francês, significa “fígado gordo”), que consiste em um patê produzido a partir do fígado gorduroso de marreco, ganso ou pato. As aves são forçadas a ingerir, diariamente e nos últimos 10 a 12 dias de vida, grandes quantidades de uma ração gordurosa que são introduzidas, de forma dolorosa, diretamente no esôfago através de um tubo metálico de 20 a 30 centímetros de comprimento. Ao metabolizar o excesso desta comida, o fígado fica gorduroso, tornando-se semissólido. A partir deste fígado doente, produz-se o famoso patê foie gras, considerado por muitos um símbolo da França, tão famoso quanto polêmico, tanto que, em alguns países, este prato foi proibido, como na Alemanha, Israel, Argentina, Grã-Bretanha e mais 11 países. Uma lei assinada pelo famoso ator de cinema Arnold Schwarzenegger, quando era governador do estado americano da Califórnia, proibiu a produção e a venda de foie gras proveniente de alimentação forçada às aves.
Outro exemplo de maus – tratos aos animais para obtenção de um alimento específico é a produção da vitela, que consiste em uma carne tenra, clara e macia de bezerros. Imediatamente após o nascimento, o bezerro é separado de sua mãe, e, permanece, por cerca de quatro meses em um cercado minúsculo que não permite sua locomoção, na verdade, o animal fica quase imobilizado. O objetivo é esse mesmo, pois ao ficar imóvel, a musculatura não se desenvolve, garantindo extrema maciez à carne. Prezado leitor! Já pensou em ficar imóvel por quatro longos meses em um cercado minúsculo? Além disso, os criadores retiram todo resquício do elemento ferro da sua ração, causando, propositalmente, anemia profunda ao bezerro, garantindo assim que sua carne fique bem clara. Alguns bezerros, ávidos por ferro, instintivamente passam a ingerir suas próprias fezes em busca de resquícios deste mineral, mas, para evitar isso, os criadores os colocam em um ripado de madeira, onde os excrementos possam cair em um piso de concreto aos quais os animais não tem acesso. Além disso, todo cercado é feito de madeira, e não de metal, para evitar que o bezerro venha a ingerir pequenas quantidades de ferro lambendo as barras metálicas. Um método extremamente cruel de criação desenvolvido para satisfazer a vaidade gastronômica de pessoas que frequentam restaurantes refinados.
Nas próximas linhas segue a descrição de um caso que classifico como a maldade das maldades, a crueldade das crueldades – a sopa de barbatana de tubarão. É um prato muito tradicional da culinária chinesa, caro, e, por isso, servido em situações especiais na China. Onde está a crueldade extrema, neste caso? No modo como as barbatanas são extraídas dos tubarões. Os pescadores cortam as barbatanas destes peixes ainda vivos que, assim (isso mesmo, vivos), são lançados ao mar e morrem, lentamente, por não poderem nadar. Além disso, o sucesso desta sopa entre os chineses está provocando uma drástica redução da população de tubarões, que são animais importantes na natureza, pois, por serem predadores, desempenham um papel ecológico fundamental nas cadeias alimentares marinhas.
Há um exemplo famoso de maus tratos com os animais, só que neste caso não ligado diretamente a produção de alimentos, mas relacionado ao universo das apostas - as rinhas de galo. Estas consistem em brigas entre galos, nas quais as aves são incitadas a travar uma luta sangrenta que, não raro, ocasiona morte ou mutilação delas; tudo isso acompanhado por ansiosos apostadores. Felizmente esta prática foi proibida, em 1961, durante o governo de Jânio Quadros através do Decreto nº 550.620/61.
Não poupamos nem mesmo os nossos melhores amigos – os cães de estimação. A fim de realçar alguma característica, nos cães de raça, favorável a sua comercialização, ou mesmo objetivando a formação de novas raças, muitas vezes os criadores promoveram cruzamentos endogâmicos (entre cães que são da mesma família, como por exemplo, pai com filha ou mãe com filho). O problema é que esse cruzamento de indivíduos da mesma família, com alta taxa de consanguinidade, causa diversas alterações genéticas que podem prejudicar bastante a vida do animal de raça. Por isso, os cães de raça, frequentemente, apresentam sérios problemas de saúde, como o boxer, que costuma desenvolver câncer, o shar-pei, que pode apresentar problemas nos rins e fígado, o pastor alemão e o rotweiller, que possuem grande probabilidade de sofrer de displasia coxofemoral (encaixe falho entre o fêmur e a bacia), e o pincher e o poodle, que possuem tendência a ter crises epilépticas, além de má-formação da dentição.
Ainda em tempo! Um caso muito frequente nas cidades brasileiras é o abandono de cães e gatos de estimação nas ruas. Além da ingratidão e crueldade promovida pelo dono do pet abandonado, é importante ressaltar que animais vagando pelas ruas se constituem em um problema de saúde pública, pois podem se transformar em reservatórios biológicos de micróbios causadores de muitas doenças, como a leishmaniose, por exemplo. Lembrando que maus – tratos promovidos a um animal, no Brasil, é crime, e pode levar o indivíduo à cadeia.
Portanto, será que os seres vivos que garantem boa parte da nossa alimentação pagando com suas próprias vidas, não merecem um pouco mais de respeito? Será que aqueles animais de estimação que nos fazem felizes com sua companhia e lealdade, não merecem um melhoramento genético correto? Será possível deixarmos de lado a crueldade com os animais e começarmos a respeitá-los um pouco mais? Afinal de contas, os animais também sentem (como nós, humanos, também sentimos), a dor promovida pelos maus - tratos. Portanto, em face do exposto, sejamos mais humanos com os nossos animais.