
Lá se vão 37 anos, quando com um grupo de amigos, inventamos uma pescaria de piaparas na famosa ceva do “seo” JucaSabão, no rio São Domingos, uns quarenta quilômetros abaixo de Limeira D’Oeste, logo ali no Triangulo Mineiro. Essa encrenca foi entre o Natal e o Ano Novo, isso foi em 1979, e igual agora,chovia que dava gosto. Mas eram aquelas pancadas típicas de verão. Chovia e parava.
Mesmo assim, antevendo o tamanho da encrenca que teríamos pela frente, depois do habitual “conselho da tribo”, decidimos tocar adiante nosso projeto de passar uns quatro ou cinco dias por aquelas paragens. Naquele tempo, asfalto era só até a rotatória para a Usina de Água Vermelha. Dalí até nosso destino final era um estradão de terra batida. Massapê molhado,imagina o tamanho da confusão.
Até a ponte de Água Vermelha, enquanto estávamos rodando no “chão preto”, a viagem foi uma beleza. Depois da guarita,no chão mineiro, rodando no massapé, mais liso que sabão,foi um Deus nos acuda. Teve momentos que achamos que o melhor era parar, esperar o barro secar para tocar adiante. No carro,três descendentes de espanhóis e um italiano. Não tinha volta.Recuar, jamais!
Como diz o velho ditado: ”Danado por danado, danado e meio”.Resolvemos seguir viagem no bravo fuscão “Fafá de Belém”, novinho,ainda amaciando o motor. Todo mundo ensopado, só de bermudas e cheios de barro até o último fiapo de cabelo. Uma meléca que dava gosto!
Esse trajeto que normalmente era feito em duas horas e meia,naquela época, aquele dia durou uma eternidade. Aconteceu de tudo que você pode imaginar. Pelo caminho encontramos caminhões atolados no barro, inclusive socorremos um senhor com uma camioneta D-10 que estava indo para casa com a esposa que havia saído do hospital depois de uma cirurgia.
O tenente Cláudio assumiu o volante e eu e o Roberto subimos na caçamba para fazer peso, pulando igual dois orangotangos “balançando” prá tirar a picape do atoleiro. Deu certo.Mais adiante, topamos com um caminhão leiteiro “atolado”no barreiro entupindo o caminho. Outra operação de guerraprá ajudar o pessoal do caminhão e liberar nossa passagem. Daí até Limeira D’Oeste, apesar do lamaçal, tudo foi mais ou menos bem.
Antes de chegar no “Porteirão” nosso bravo “Fafá de Belem”arriou num lamaçal sem fim. Ali chegamos a pensar em cortar a cerca de arame farpado, e sair pelo pasto, cortando aestrada, mas o Roberto com muito jeito e calma tirou o carro doatoleiro. E fomos adiante. Paramos na vendinha do Porteirão,varados de fome comemos um queijo inteiro e tomamos umas talagadas de bagaceira para rebater a friagem.
Prô amigo ter uma ideia do que foi essa encrenca, nós saímos de Fernandópolis por volta de seis horas da manhã e chegamos ao nosso destino lá pelas cinco e meia da tarde, ensopados e embarreados,verdes de fome, tremendo de frio e mortos de cansaço.
Antes de posar para a foto histórica na chegada, ao lado do valente fuscão branco que ficou marrom de tanto barro, o hoje tenente da reserva do Corpo de Bombeiros de Limeira-SP, Claudio Rodrigues dos Santos, marrom de barro que dava gosto de ver, olhou prô “Fafá de Belém”, olhou prá turma, tirou o boné,coçou a cabeça e lascou:--- Tá certo que a gente veio pescar, mas precisava trazer ocarro?