Gil Piva

Ouroeste, a cidade das ilusões perdidas

Ouroeste, a cidade das ilusões perdidas

Por Gil Piva - Professor

Por Gil Piva - Professor

Publicada há 8 anos

Quinta (12/01), em sessão na Câmara Municipal, Ouroeste consolidou radicalmente sua situação política e financeira atuais. Trata-se de um fenômeno incrível, de um choque de gastos públicos mal administrados com benefícios de “lobos solitários”desajustados. A expressão não é minha,mas bem cabe aqui. Explico. Quem é da região conheceu a força emancipatória e crescimento econômico da cidade. Fato que atraía gente de todos os lugares. Com isso, a população aumentou, o que, perdoem-me se eu estiver enganado, pode ser, em tese, considerado como transtorno coletivo e social; contudo a regulamentação dessas instâncias foram insatisfatórias,ou seja, o movimento que causou esse boom precisava e continua precisando ser explicado pela administração pública, tanto como esta não pode, também, se descontrolar diante de situações inesperadas.Vale lembrar, inclusive, que se somam a este fato inúmeras desculpas para moldar a consciência da população e tentar justificar ilimitados erros políticos.E os erros políticos foram fatores muito maiores do que o famigerado“crescimento” desgovernado da cidade.As pessoas eram atraídas para a cidade, após saberem da parte (enorme) dos recursos destinados ao município pela usina de Água Vermelha,com a esperança (ou oportunismo) de uma vida melhor.Exemplos de crescimento:1. Ouroeste possui sua Guarda Municipal– nem Fernandópolis possui uma;2. até há pouco tempo o material didático-pedagógico aplicado na rede municipal de ensino era o do Sistema Anglo de Ensino (meu Deus, quanto será que custava isso tudo?). Tá bom,ou quer mais?;3. os professores podiam almoçar junto com os alunos (embora saibamos que a merenda seja apenas para a criança);4. quem era de lá ganhava bolsa universitária;5. os funcionários recebiam o 14ºsalário, etc.Por esse prisma, fica claro como crescia com sucesso, ostentando aos quatro ventos. Infelizmente, ostentou em demasia. Hoje já não se tem garantia nenhuma de que bolsas de estudos serão pagas. Ouvi dizer que até os ônibus tiveram suas linhas limitadas para que os custos com combustível coubessem no orçamento (os estudantes são levados até Fernandópolis; Votuporanga e Jales ficam além do horizonte). Calma, leitor, disse que ia explicar o que aconteceu na quinta e ainda não expliquei. Em sua maioria, os vereadores votaram a exoneração do 14ºsalário (benefício concedido no aniversário do funcionário público, efetivo ou não) da folha de pagamento.Alguns alegam não ser o 14º salário uma lei obrigatória. Certo! Ouroeste não é o único município da região com crises financeiras. Mas talvez seja o único, dado à perspectiva de crescimento que vinha mostrando ao longo dos anos, a mercê de um declínio agora por falta de perspectiva de crescimento.O município passa por uma crise muito parecida com a crise enfrentada pelo Rio de Janeiro (exagero? Basta vislumbrar as duas cidades de acordo com suas proporções), e tem de lidar com cortes e gastos. Concordo. Só que existe um grau de excepcionalidade no que tange aos proventos de cada um: a tendência da qualidade de trabalho significa, muitas vezes, piorar.As duas principais formas de se manter um eficiente serviço prestado se relacionam à qualidade do emprego ou a uma rentabilidade financeira considerada.Fora isso, o resto é balela, e um enorme retrocesso.Diante da decisão dos vereadores,lembrei-me das palavras do sociólogo Demétrio Magnoli, segundo o qual“o político que se declara gestor é um gerente da velha ordem. Adicionalmente,é um político de inclinações autoritárias, pois a missão que se atribui não requer o exercício da persuasão mas, apenas, a transmissão de ordens e a distribuição de tarefas.”Enquanto isso, Ouroeste trilha um perigoso caminho sem volta, onde logo tornará a cidade das ilusões perdidas.


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