Gil Piva

Só os maus poetas são livres

Só os maus poetas são livres

Por Gil Piva

Por Gil Piva

Publicada há 8 anos

Dizem os escritores que a escrita é uma tarefa árdua.Demanda aplicação,concentração e tempo,muito tempo. Pode levar semanas,meses e até anos. Acredito.Esses dias cheguei em casa com uma inspiração. Supunha possível começar algo (ainda indefinido, que tanto podia ser um conto ou um romance,segundo sua pretensa infâmia) diante da tela do computador.Corri ao escritório, todo animado,mas, em instantes, lá vem minha digníssima senhora dizendo que o gás acabara e, pior, não havia um de reserva.Pronto, os três primordiais itens que leva alguém a escrever se foram por água abaixo. Ao sair para comprar o botijão, perdi a concentração,a inspiração e tempo.Depois disso fiquei imaginando a rotina das escritoras, diante do fogão,p. da vida com o atraso do jantar. Impossível imaginar uma Virgínia Woolf esfregando o chão, uma Clarice Lispector lavando louça, ou uma Mary Shelley indo às compras. Impensável para a nossa graça e desgraça.

A política é o hábito de escorregar nas cascas de suas próprias bananas Para nossa graça, uma vez que eu prefiro, antes, ter uma mulher ao meu lado a ter uma militante escritora divagando a todo instante trancafiada em seu mundo fictício.E para a desgraça delas, que tiveram de sucumbir tal rotina para nos brindar com maravilhosos livros.

E com os homens? Seria diferente?Duvido. Vejo a cena:– José, está ocupado? – Perguntaria Pilar, esposa do Saramago.– Estou em vias de terminar meu novo best-seller – responderia ele compenetrado.– Isso pode esperar. Ponha o lixo para fora, por favor.***A minissérie Dois Irmãos gerou muitas discussões acerca de sua sobriedade artística: “seria uma obra excelentíssima de arte?”, entoaram uns; ou uma “chatice melodramá-tica requintada?”, sentenciaram outros. A verdade pouco importa. Até por que a unanimidade, em geral,é burra. O que é arte hoje pode não ser mais amanhã, ou vice-versa.Portanto, a discussão por si pró-pria em torno da série talvez nos ofereça um sentido maior do que ela própria.Um dos meus filósofos favoritos,Emil Cioran, já dizia que “uma poesia digna desse nome começa pela experiência da fatalidade. Só os maus poetas são livres”.***A moda da repercussão é sempre estranha. O meu artigo do dia 14/01 (Ouroeste, a cidade das ilusões perdidas) rendeu críticas elogiosas e críticas não tão elogiosas assim.Na história da política, que fique claro, são seus tempestuosos passos que repercutem para os colunistas de jornal.Trata-se de um primitivo hábito mantido pelos eleitos de escorregarem nas cascas de bananas deixadas por eles mesmos. Demais, meu papel não é escrever, é agradecer.


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