GIL PIVA

Judas com alma de Buda

Judas com alma de Buda

Publicada há 8 anos

O prefeito Thiago Flores de Ariquemes, interior de Rondônia, decidiu criar uma comissão com os vereadores para, pasmem, tornar “legal” que os livros didáticos do MEC de 2017 que tiverem produzidos assuntos como diversidade sexual, uso de preservativo e casamento homossexual devem ter as respectivas páginas rasgadas. Pior, de fora, muitos devem estar aplaudindo essa decisão repugnante, alegando a mesma sentença “vaidosa”: tudo pelos bons costumes e preceitos morais. Não é à toa que ando relendo Emil Cioran (1911-1995), filósofo cuja obra marcante é o livro Breviário da Decomposição – onde se buscou a fundo entender o código do desespero humano. Para Cioran, o desespero humano se concretizava na repetição histórica dos fatos, por assim dizer, alimentando “essas agonias da história que precedem a insanidade de toda aurora...”. Observe o paradoxo: o que é mais agônico aqui? O livro didático com seus novos temas tratados? Ou isso seria a farsa da insanidade da aurora (decomposta pela intolerância)? Mas para ser mais objetivo, e menos filosófico, basta lembrarmos o caríssimo prefeito e seus correligionários, de que tanto é crime destruir material público quanto demonstrar preconceito de qualquer espécie. Ainda bem, para fecharmos como uma ótima frase de Cioran, que existem seres humanos acima destes “Judas com alma de Buda”.

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Antoine Fuqua não é lá um grande diretor, mas sua refilmagem de Sete Homens e um Destino, com Denzel Washington, é um Blockbuster que vale a pena. Pouca gente sabe, mas o famoso filme dos anos 1960, com Steve McQueen e Charles Bronson, já era um remake de Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa.

A história é simples: sete pistoleiros se juntam para defender uma cidadezinha. A graça no filme atual reside no fato de que se filmar faroeste hoje em dia já se torna um grande desafio. Não há mais público específico para isto. Por tudo isso, então, creio que Fuqua acertou momentos mitológicos que agradarão aos senhores antigões, fãs do gênero, e aos novatos. Até me deu vontade de rever o clássico de 1960.

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P.S.: Eu quase dei o título a este artigo de “Sete idiotas e um destino”, para me referir à questão do prefeito e dos livros. Entretanto, fazer referência a Cioran é sempre de uma lógica mais pungente.

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