Acaba de ser lançado pela editora Intrínseca o novo romance de Joёl Dicker, O Livro dos Baltimore. De forma rápida, o livro nos narra o drama familiar do personagem Marcus Goldman, alter ego do autor.
A história, cujo cunho investigativo (mas não policialesco) vai perpassando a infância e adolescência de Goldman, ganha ares de suspense ao manter até o final o fato que assolou sua vida. Trata-se de uma crônica familiar, e, provavelmente, uma crônica familiar de mau gosto.
Repito: muito provavelmente. Digo isso porque eu não cheguei a ler o livro; então, parto de uma premissa arriscada, porém incontrolável. Duas coisas me levam a nutrir tal julgamento de valor.
Primeiro, que, para um colunista/cronista, fica difícil não se engalfinhar nas divagações irrequietas que vamos despejando no texto. Em alguns casos (como no texto de hoje), minha imparcialidade deu lugar a um espírito jocoso. Além do que, muitas vezes, não temos tempo de ler tudo que queremos comentar.
Segundo, que eu já tentei ler outro livro de Dicker, e não passei das cem primeiras páginas.
As descrições de Dicker são tentativas fracassadas
Joёl Dicker ganhou notoriedade quando escreveu o livro A verdade sobre o caso Harry Quebert (ed. Intrínseca, 2014). Dicker foi celebrado quase que com unanimidade por críticos do mundo todo. E venceu o Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa e o Prêmio Goncourt des Lycéens.
O que impressionou mesmo os críticos (e a mim não) na época, não foram apenas os prêmios conquistados, mas o fato de Dicker os ter ganhado já no seu segundo romance e tão jovem – com trinta anos.
A verdade sobre o caso Harry Quebert é um romance policial que celebra um escritor (Goldman) em meio a uma enorme crise criativa e a prisão de seu mentor Harry Quebert. É entre essas idas e vindas que o romance vai se compondo: assume a investigação para provar a inocência do amigo e descobre, por acaso, o caso como uma possibilidade de ajuda para seu bloqueio criativo.
Contando assim, a história soa interessante; só que as descrições de Dicker são tentativas fracassadas, que não dão conta de explorar essas mesmas propriedades.
Embora Dicker seja suíço, ele brinca de ser Philip Roth, trilhando a questão “como escrever um romance bem sucedido?”. O que atrapalha o avanço na leitura do livro e a resposta a essa pergunta está em Dicker usar como fundo uma carga retórica a “favor” do suspense policial.
Roth, sem dúvida, faria o contrário: faria do suspense policial o fundo de outra investigação, a psicológica.
A verdade sobre o caso Harry Quebert é que, antes, remonta uma história de suspense. Um bom livro faria um suspense, daria um caráter inerente ao conteúdo graças ao seu estilo – o que são coisas bem diversas; afinal, até quando sentimos que temos um bom conteúdo nas mãos, devemos isso à técnica. Pode não parecer, mas nem tudo é o que parece.
A verdade verdadeira é que Dicker não é nenhum prodígio, mas acabou, felizmente, bem “sucedido” ao vender mais de um milhão de exemplares. Eu comprei um. E não cometerei o mesmo erro duas vezes – porque a literatura, quando “verdade” sublime, causa um amargor febril em quem lê, não um dissabor insosso.