Histórias do t

Quem nunca caiu de uma árvore?

Quem nunca caiu de uma árvore?

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 8 anos

Recuando no tempo, lá pelo final dos anos 50, me recordo perfeitamente bem que meu pai e meus tios tinham suas espingardas “Pica-pau” e suas sacolas de cartuchos. Lembro também que essas espingardas eram carregadas pela boca. Colocavam chumbinhos, depois despejavam a pólvora que era armazenada dentro de um mini chifre de boi, e socavam bem com uma vareta, que enfiavam no cano da espingarda. Um dos meus tios tinha até cachorros “Paqueiros e Perdigueiros” que eram ensinados para “levantar” perdizes, nhambus, codornas e pombas do ar, nas palhadas das roças de milho e arroz. 


A caça para o homem do campo, naqueles tempos, era uma coisa natural, um meio de buscar “mistura” na natureza. Assim como nossos pais, tios e avós, nós não tínhamos a menor ideia sobre preservação ambiental. Matas enormes eram derrubadas no machado, para dar lugar às cidades e áreas de lavoura para plantio de café, arroz, feijão e milho. Coqueiros e moitas de taboca, eram derrubados para construção das antigas casas de barro, as taipas. Eram tempos rudes, dias inocentes. E vendo os adultos com suas espingardas, os “moleques da colônia” logo imitavam os mais velhos, fabricando nossos estilingues e até arapucas. Para os estilingues, a gente procurava sempre uma forquilha de goiabeira ou de jabuticabeira, que eram as mais resistentes; bastavam duas tiras de câmara de ar de bicicleta e um pedaço de couro para fazer a atiradeira. 


A munição era bolinhas de saibro, que a gente fazia manualmente, na beira do brejo e deixava secando ao sol. Os tempos e hábitos mudaram tanto, que hoje até o saibro tem outro nome; agora é chamado de argila. Quando a gente não estava na escola ou no nosso campinho de futebol, nossa ocupação era caçar rolinhas ou qualquer outro bicho que voasse, mas também nossos estilingues serviam para derrubar jatobás e o cobiçado amendoim de bugre. Como subir naquelas árvores imensas, de caules retos e avantajados, era uma missão quase que impossível, atirar pedras ou pedaços de paus contra as pencas dos frutos lá no alto, além de não dar bom resultado, também não era uma boa ideia. 


Então era preciso ser bom na pontaria com o estilingue, para acertar a pedrada bem no talo do jatobá ou da concha do amendoim de bugre, que era até mais resistente que o talo do jatobá. Um belo dia, em nossas andanças pelos brejos e pastos desse mundão velho e sem porteiras, nossa turminha encontrou no meio do pasto da Fazenda Cáfaro, um pouco adiante onde hoje está a Universidade Brasil (antiga Unicastelo), um enorme pé de amendoim de bugre. Com uma corda, um pedaço de pau amarrado numa das pontas, laçamos um dos galhos mais baixos da árvore, que ficava uns três ou quatro metros do chão. E eu subi até lá em cima e fiz a festa derrubando as conchas do tal amendoim, que na verdade é um tipo de castanha. O problema foi na hora de descer da árvore.. 


Era preciso desamarrar a corda. E aí planejei a descida: havia um pedaço de galho pouco abaixo do galho onde a corda estava amarrada. O plano era apoiar as mãos neste galho, pendurar, balançar o corpo e cair em pé, lá embaixo. Não foi uma boa ideia. O galho estava podre e logo que me apoiei nele, ele quebrou e eu fui direto, como um foguete de encontro ao solo... aindatentei aparar a queda com as mãos, mas não deu...e eu enfiei o rosto no chão. Foi um tombo e tanto e eu fiquei completamente atordoado. O rosto totalmente anestesiado com a pancada, tanto que parecia ter dobrado de tamanho. Receoso, temendo pelo pior, passei a mão na boca e ela veio toda manchada de sangue e um dente quebrado; vendo aquilo, meus “amigos” ficaram apavorados e deram no pé. 


E eu em pânico, desesperado, pedia ajuda aos amigos. Bom, como vocês estão vendo, eu sobrevivi mas aquele tombo foi realmente histórico. Teve outras quedas. Mas nenhuma delas foi tão feia e perigosa como aquela. Semana que vem tem mais. Até lá.



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