Olhos perfurados para inibir o canto, asas cortadas para evitar a fuga, injeção de álcool puro no sangue para potencializar a embriaguez e, com isso, parecer manso, confinamento em caixotes ou malas (sem iluminação ou ventilação), dias sem tomar água ou se alimentar, garras e dentes serrados para inibir reações ferozes, ossos quebrados para forçar a imobilização, mães mortas para que apenas seus filhotes sejam vendidos, dentre outras crueldades. Essas são algumas das táticas utilizadas pelos traficantes para transportar os animais silvestres, sem chamar a atenção das autoridades, em portos, aeroportos, barreiras alfandegárias e, até mesmo, pelo correio, do seu local de captura até o destino final.
"Os animais são reduzidos a meras mercadorias pelos traficantes, no entanto, são mercadorias vivas, que fazem barulho, por isso, os criminosos precisam silenciá-los para não chamar a atenção”, explica Dener Giovani, coordenador da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), uma organização não-governamental, sem fins lucrativos e que combate o tráfico de animais da biodiversidade brasileira. De acordo com Giovani, os pássaros são cegados para não enxergarem a luz do dia e, desse modo, não cantarem; as araras têm os ossos do peito quebrados para que esses espetem seus órgãos, provocando dor constante às aves, o que as mantêm imóveis; os micos, quando vendidos em feiras, geralmente, estão completamente embriagados para que pareçam mansos. Quando o animal traficado é mamífero, é comum as mães serem mortas para que apenas os seus filhotes, a “mercadoria” que interessa ao tráfico, sejam transportados.
Em certa ocasião, um filhote de peixe-boi, de apenas duas semanas, foi encontrado no aeroporto de Manaus (capital do estado do Amazonas), enrolado em uma toalha molhada e dentro de uma grande mala. “Detectamos no momento do embarque. Ele ia até o Japão. Agora, imagine um animal que mama a cada duas horas numa viagem tão longa. Ele fatalmente não sobreviveria”, recorda Cecília Fernandes, uma das coordenadoras da Renctas. A propósito, nove em cada dez animais silvestres morrem durante a captura ou transporte, antes de chegarem ao destino final, segundo os especialistas.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o tráfico de animais silvestres é o terceiro mais lucrativo do mundo, perdendo apenas para o de drogas e de armas. A Renctas estima que esse comércio ilegal movimenta, no mundo, em torno de 20 a 25 bilhões de dólares por ano. Detentor da maior biodiversidade mundial (20% do total de espécies do planeta Terra, segundo o Ministério do Meio Ambiente), o Brasil constitui-se em uma das principais rotas desse crime ambiental.
Em torno de 40% dos animais capturados na natureza transpõem as fronteiras do país, principalmente aves (82%), que têm como destino coleções particulares, zoológicos e pet shops da Europa, Ásia e América do Norte. “Quanto mais ameaçada a espécie, maior o valor no mercado e, portanto, mais procurada”, afirma o coordenador da Renctas, Dener Giovani. Também são valorizados os produtos de fauna, como penas, peles, garras e presas como matéria-prima para adornos e artesanato. Nesses casos, destacam-se os papagaios, araras e periquitos brasileiros como fornecedores de penas, e os répteis e mamíferos como principais fornecedores de peles. Além disso, a comercialização e exportação ilegais de recursos biológicos, a chamada Biopirataria, também motivam o tráfico de animais silvestres. Para essa finalidade, os répteis e alguns aracnídeos são bastante visados. Para se ter uma ideia, um grama de veneno de cobra coral-verdadeira (Micrurus frontalis) alcança o valor de 31.300 dólares no mercado internacional; já o grama do veneno de aranha-marrom (Loxosceles sp) não sai por menos de 24.570 dólares e do escorpião amarelo (Tityus serrulatus) custa 14.890 dólares. Destacam-se que esses valores estão desatualizados, pois foram obtidos do “Primeiro Relatório Nacional do Tráfico de Animais Silvestres”, publicado há mais de 15 anos pela Renctas, ou seja, atualmente, esses valores podem ser ainda maiores.
Qual o panorama em nossa região?
De acordo com o comandante da 2ª Companhia da Polícia Ambiental do município de Fernandópolis/SP, capitão Mário Luciano Siconeli, o que estimula o tráfico de animais silvestres em nossa região é a obtenção de espécimes a partir de criadores não autorizados pelo IBAMA, a fim de mantê-los no ambiente doméstico como animais de estimação. Essa conduta cria uma demanda que estimula esse comércio ilegal. Aves estão entre os animais silvestres mais apreendidos pelas autoridades ambientais, sendo que a maioria é capturada por traficantes no Mato Grosso do Sul e Triângulo Mineiro (figura 1).

Figura 1: espécies de aves mais apreendidas, no ano de 2015, e respectivas quantidades no âmbito do 4° Batalhão da Polícia Ambiental (abrange as regiões de São José do Rio Preto, Franca e Ribeirão Preto) e do Comando de Policiamento Ambiental (abrange todo o estado de São Paulo). Fonte: Sistema de Administração Ambiental (SAA).
O capitão Siconeli (figura 2) destacou que, caso um cidadão deseje manter animais silvestres em casa, a lei permite a obtenção a partir de criadores devidamente autorizados pelo IBAMA. Esses criadores emitem nota fiscal que pode ser utilizada pelo proprietário do animal como prova de aquisição legal. Ademais, os criadores autorizados criam os animais em cativeiro, já os clandestinos os retiram da natureza, causando impacto na população dos exemplares da fauna silvestre. Outro detalhe importante ressaltado pelo capitão é que, quem mantêm em sua posse um animal silvestre adquirido de um criador não autorizado deve entregar, espontaneamente, o espécime às autoridades ambientais. Essa conduta não sofre nenhuma sanção penal. Porém, caso alguém seja surpreendido pela autoridade ambiental com um animal silvestre adquirido ilegalmente, aí sim sofrerá sanções penais.
É importante o cidadão, ao ter conhecimento de casos de tráfico de animais silvestres, denunciar à Polícia Ambiental de sua cidade ou região, ou entrar em contato com o serviço “Linha Verde” do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), pelo telefone 0800-61-8080 ou na página dessa instituição na internet.

Figura 2: Prof. Cadu (à esquerda) e o o comandante da 2ª Companhia da Polícia Ambiental do município de Fernandópolis/SP, capitão Mário Luciano Siconeli (à direita).
Fonte: o autor.
Além do prejuízo à biodiversidade - aumentando as chances de extinção de algumas espécies - essa prática criminosa também oferece riscos à saúde humana, pois muitos animais são portadores de micro-organismos patogênicos, alguns conhecidos da Medicina, como os causadores da febre amarela, toxoplasmose, leishmaniose, doença de Chagas, dentre outras enfermidades, no entanto, outros ainda são desconhecidos da Ciência e podem se espalhar para os locais de destino dos animais traficados.
A ganância em busca do lucro fácil parece não ter limites no mundo dos mercados ilegais, pois, por meio dessa prática cruel, que é o tráfico de animais silvestres, os criminosos reduzem a meras mercadorias o bem mais valioso do nosso planeta, que são os seus seres vivos.