Pelo direito das crianças de sonhar
“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”.
Rubem Alves
Recentemente recebi dois presentes maravilhosos. O primeiro foi a oportunidade do encontro com professoras com quem trabalhei durante quase dez anos em uma creche na cidade de São Paulo e durante esse tempo de convívio nos tornamos mais que amigas; somos parceiras em busca de qualidade para a educação infantil em nosso país. O segundo foi o livro “Infância e suas linguagens” organizado por minha amiga e mestra, a querida Monica Pinazza, juntamente com Marcia Gobbi – ambas Professoras Doutoras da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Um deleite; leitura obrigatória para todos os profissionais da educação. Encantou-me particularmente o capítulo “O direito das crianças de sonhar” do professor da Universidade de Granada, Juan Mata.
Por que me refiro a presentes recebidos com tamanho fascínio? Explico.
Certa vez ouvi de uma colega de trabalho que o seu filho de três anos foi “advertido” pela direção da escolinha em que frequentava, pois chorava muito e não queria ficar no local. Obviamente me espantei com o inusitado da ocorrência. As escolas para qualquer faixa etária, mas e, principalmente, as de educação infantil, devem primar pelo convívio, pelas descobertas, pelo prazer e pelo encantamento, e, cada vez mais estão se tornando mera cópia, em todos os aspectos, da arcaica escola tradicional. Ou seja, verdadeiras gaiolas para controlar seus pássaros como diz o educador Rubem Alves.
aberrações que ocorrem cotidianamente em muitas escolas em nome da boa educação (aqui no pior sentido).
Voltando ao direito de sonhar: Juan Mata baseia-se nas ideias do filósofo francês, Gaston Bachelard, que define sonhar como “... uma forma de filosofar na intimidade, de brincar com belas palavras abstratas, de acreditar e desacreditar, de passar de um estado de animo para outro, de surpreender-se diante do novo e do conhecido, de fazer-se perguntas e duvidar... “. A meditação primitiva seria aquela que estabelece correspondência entre assombros pessoais e as maravilhas do mundo sobre o qual medita, chegando a ser “uma noite na noite”.... só assim podem ser percebidas nítida e compassadamente as pulsações do universo e as do próprio coração”.
O autor ainda nos remete a Sigmund Freud sobre a relação entre poesia, fantasia e devaneios (ou sonhos diurnos) e relaciona a criança que brinca ao poeta que cria. Na brincadeira e na poesia os sujeitos criam mundos fantásticos e os habitam com paixão e nem por isso os confundem com a realidade. Os adultos renunciam à brincadeira, mas substituem-na pelas fantasias ou devaneios. As artes são o “território intermediário entre a realidade que nega desejos e o mundo da fantasia que os explica..., porque o oposto de brincadeira não é a seriedade, mas a realidade.”
A percepção da beleza, portanto, não é de forma alguma passiva. Ela é fruto de um processo mediado, por excelência, pela escola e pelo professor. É nos livros que encontramos a necessária provisão de tesouros da imaginação poética. A escrita é que torna possível a transmissão dos devaneios poéticos e a leitura é a forma mais simples de sua recepção. Portanto, o ato de ler é uma partilha dos devaneios alheios.
“Os livros são, pois, nossos verdadeiros mestres de sonhar. Sem uma total simpatia pela leitura, por que ler?” (Gaston Bachelard)
Juan Mata ainda nos instiga dizendo que é necessária a vontade dos adultos de ensinar os mais jovens “...a atravessar o umbral do significado comum das palavras .... e aventurá-los no mundo dos símbolos. É seu dever tornar os mais jovens participes da carga metafórica que as palavras podem ter: um barco é um barco, mas também uma representação da liberdade....Para isso são necessários explicações e diálogo, estímulos para a livre interpretação e a
criação. E essa exigência não é de caráter escolar ou meramente recreativo, mas ético.... pois afeta o modo de perceber, sentir e desejar o mundo...
É por isso que propiciar devaneios às crianças, envolvê-las na linguagem poética, estimular suas fantasias, favorecer seus assombros e suas paixões, alenta o conhecimento e a compreensão da vida, amplia as alegrias e as esperanças da infância.” (O destaque é por minha conta e risco).