Gil Piva

A mulherada no bunker de Christian Grey

A mulherada no bunker de Christian Grey

Publicada há 8 anos

Estive no shopping por esses dias e tal foi minha surpresa quando, ao ir ao banheiro, me deparei com uma fila quilométrica de mulheres na porta do cinema. Embora eu não soubesse que o recente Cinquenta tons mais escuros, continuação da trilogia Cinquenta tons de cinza, já tinha estreado, deduzi de antemão que a fila se dedicava a ele. 


Eu ainda não decidi se vou ou não assistir ao filme. Digo isso não por problemas de gosto ou descaso, apenas pelo simples fato de que ultimamente, devido à correria, ando preferindo aguardar mais um pouco e assistir aos filmes no conforto de minha residência. Na fila, dezenas de mulheres, de todas as idades, e belas, por sinal. 


A questão sempre me perseguiu: por que o livro (e agora o filme) despertara o interessa delas? Trata-se, não duvide, leitor, de um caso psicanalítico. Risos? Em uma de minhas sessões, perguntei a minha terapeuta o que achava a respeito. Com rapidez, afirmou que desconfiava de as mulheres projetarem em Grey o ideal de confiança e segurança (de ““pegada”, mesmo) que os homens de hoje perderam no que tange à sedução. Dei risadas, e concordei. Mas, a meu ver, outra questão ainda paira no ar. As confusões do desejo sexual feminino há muito, dentro da modernidade, tem passado pela dualidade mulher doméstica/ profissional, mulher refém da prática-modesta-e-sem-graça-do-lar/ independência financeira e sexual. 


Eis o vil lado da situação. A questão pode ser explicada assim: Grey, com seu excesso sedutor, devolve às mulheres (não falo aqui propriamente da personagem com quem Grey se relaciona no filme, mas das leitoras e espectadoras) contemporâneas o prazer de se sentirem revestidas de novo pelo desejo indefinido, mesmo diante da confusão satisfação pessoal/social que cada uma carrega consigo.


Repito, meus apontamentos em nada se direcionam à personagem da história, que, digamos, é intensamente submissa enquanto aparentar abertura, mas intensamente aliviada pelo deleite da entrega: muitas vezes o desejo é enorme e o prazer, incompreensível.


A mulherada pode não concordar, só que do jogo “palpável” do erotismo os parceiros desembocam nos motivos confusos de suas próprias opções.

No final das contas, o que todas exibem inconscientemente talvez seja a vontade de serem reféns no bunker de Christian Grey.


***


Continuando no assunto sobre bunkers, outro filme que vale a pena ser visto é Rua Cloverfield, 10. Com John Goodman e a rara beleza de uma ainda desconhecida Mary Elisabeth Winstead, o filme é baseado na série homônima. Porém não se engane, o filme foge do óbvio e ganha força surpreendente. Aviso: quem não sabe nada sobre a série, que assim permaneça e assista ao filme sem preencher as lacunas de sua curiosidade. Fazia tempo que eu não assistia a um filme com tom de suspense e terror e um roteiro original tão criativo. Fica aí a dica.


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