José Renato Se

Há limites para a criação?

Há limites para a criação?

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor

Publicada há 8 anos

Há Limites para a criação? 

Essa questão me incomoda há muito tempo. Ponho-me a pensá-la constantemente. Há um momento em que o artista “seca” em termos de criação? Explico-me: é comum constatarmos que determinados artistas atingiram um patamar absurdamente grande em termos de qualidade na criação, todavia, apenas param ou não conseguem manter o mesmo diapasão. Exemplos: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda. Em minha opinião: gênios. No entanto, há muito não produzem nada significativo, no sentido em que nos acostumamos. Caetano Veloso, a meu ver, realizou no álbum “Circuladô” de 1992 seu último grande trabalho. Muito embora, também na minha visão, tenha alternado criações belíssimas e verdadeiras bobagens descartáveis. Quer ver? Em “Cajuína” diz: “- E éramos, olharmo-nos, intacta retina. A cajuína cristalina em Teresina...”.  Que construção! Que domínio de nossa língua! Que riqueza de verso! Ao contrário, cantou: “- Quem cuxixa, o rabo espicha...” Dá para acreditar que é o mesmo? Gilberto Gil talvez – sempre grifo que é minha opinião – o álbum acústico da MTV seja seu último relevante. Chico confesso, não me recordo... Acredito que o disco “Paratodos”... Não sei. Porém, nesse caso há uma justificativa: passou a se dedicar à literatura. Detalhe: é um escritor muito bom. Sugestão: Leiam “Budapeste”. Parece que Chico se desencantou com a música. Talvez tenha constatado que seu veio criativo nessa linguagem, tenha se esgotado. 


Juan Rulfo, gênio da literatura mexicana, cujo centenário de nascimento é nesse ano, publicou duas obras: “Pedro Páramo” e “Planalto em Chamas”. Obras gigantescas. Traduzidas para o português numa única edição. Nunca mais publicou nada. Alegava não se capaz de escrever algo melhor ou importante. Atingiu a plenitude nesses textos. Outras publicações incorreriam em “trabalhos menores”. Em nome do respeito à sua criação, silenciou.


Em tempo: Devo uma coluna a ele. A razão pela qual discorri sobre esse tema está diretamente ligada a Belchior. Sim, ao grande letrista cearense. Surpreendeu à todos, em meados dos anos setenta. Não só na voz de Elis Regina, sobretudo na própria. Arauto de uma geração, letras cortantes, ácidas, doces, líricas, trágicas, cômicas e sublimes. A aridez do Nordeste, somada a malemolência carioca, a neurose paulistana. Talvez: o avesso, do avesso, do avesso, do avesso. Seu disco inaugural “Alucinação” é uma obra prima. Não há aquela música, ou faixa, chatinha que pulávamos na vitrola. Ouvíamos o disco inteiro. TODAS AS FAIXAS. 


Belchior conseguiu dizer aquilo que sua geração não foi capaz. Sem ser panfletário, todavia, lírico, jogou à cara de todos nossas idiossincrasias, nossas angústias e frustrações. Desfez falsos mitos e pseudos ídolos. Ensinou-nos que a revolução não era armada, todavia, estética e ética. Confesso: toda semana escuto

“Alucinação”. Não me canso. No entanto, seus trabalhos posteriores começaram a despencar. Algumas belas composições. Qualidade sim, porém, a quantidade diminuiu. Foi desaparecendo. Belchior começou a se transformar na sombra de si. Veio um ostracismo e o “autooutracismo”. Enfim, SUMIU.


 Procurado, deu uma entrevista à GLOBO – claro, sempre a maldita- e novamente, escafedeu-se. Onde está Belchior? Não sei. Nem ele sabe. Perdeu-se no passado, como “Uma roupa que não nos serve mais...”. Aí está, leitores, o triste e vivo exemplo do esgotamento da criação. Não é um crime, uma mácula, para aquele que nos legou muito. Àquilo que produziu de grandioso – convenhamos não foi pouco – deveria ser o bastante. No entanto, pondero, deve ser um problema de ego. Então, fiquem os com Heidegger: Ao invés de pensarmos em decadência, entendamos com um final glorioso. é mais justo.

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