HISTÓRIAS DO T

Como foi que nós sobrevivemos?

Como foi que nós sobrevivemos?

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 8 anos


Lá pelo começo dos anos sessenta, família pequena tinha quatro ou cinco filhos e a molecadinha vivia na larga. Como naquele tempo ainda não havia televisão aqui em Fernandópolis, nem havia sido inventados os videogames e toda essa parafernália eletrônica e digital de hoje em dia, a gente sempre arranjava diversão nas ruas. Todo mundo só de calção, sem camisa e pés no chão, brincando de salva-pegas, gringalha, futebol com bola de meia, jogando raquete, bilboquê, pião, empurrando pneu, soltando papagaio (sem Cerol na linha) e um monte de outras atividades inacreditáveis. A gente era “fogo no boné do guarda”!


E olhe que todo mundo estudava de verdade. Aluno que tirava nota vermelha, levava “bomba”, repetia de ano mesmo e não tinha choro e nem vela! E se faltasse na aula, o inspetor de aluno ia buscar o gazeteiro em casa, ou saber o que aconteceu, o motivo da ausência do estudante na escola.


Como as famílias eram numerosas e o dinheiro era muito curto, pelo menos eu e meus amigos de infância, nunca soubemos o que era ganhar mesada dos nossos pais, então, agente tinha que se virar, dar os nossos pulos para arranjar uns trocados. Uns iam engraxar sapatos, outros iam “birolar na apanha de algodão”, outros faziam reciclagem sem saber o que era isso, porque juntavam papelão, vidro, ossos, alumínio e metal para vender nos “ferro-velhos” da cidade. Sortudos mesmo, eram os nossos amigos que conseguiam entrar na Guardinha (Guarda Mirim), mas isso é um capitulo especial e fica para outra oportunidade.


Eram tempos rudes, mas felizes. Nossos calçados eram as “papuchas”, as famosas Alpargatas Roda. Relógio no braço? Só de plástico, daqueles de mentirinha, e mesmo assim, não era todo mundo que tinha um. Quando o sorveteiro vinha empurrando seu carrinho pela rua, soprando o apito, a gente corria comprar sorvete de palito; de casquinha, nem sonhar. Era muito caro. E aí, quem não tinha dinheiro, sempre ganhava uma “mordidinha” do sorvete do amigo. Ou então, um compravade groselha, outro comprava de limão, de laranja, de tamarindo, de cereja e aí cada um dava uma “mordidinha’ no sorvete do outro, para provar vários sabores. Eram tempos solidários.


Com as raras garrafas de guaraná Tubaina ou da sodinha Ferrari, era a mesma coisa. Virava e mexia a gente fazia uma vaquinha prá comprar uma garrafa de refrigerante. Todo mundo da turminha bebia um gole na boca da garrafa. Se alguém tivesse uma afta (para a gente, afta era boqueira), todo mundo pegava a coisa. E a gente curava isso com aplicação de sal grosso ou pedra ume. E resolvia a encrenca numa boa.


Levanta a mão quem é desse tempo e nunca pegou uma boqueira ou uma frieira (micose). Não se assuste, mas lembra como o povo daquela época curava aquelas frieiras bravas? Fervia urina com pedaços de fumo de corda, e colocava aquilo bem quente, em cima do local afetado. Era tiro e queda. E eu fico aqui pensando, como é que foi que nós sobrevivemos?


Hoje o povo leva o cachorro de estimação no pet shop. O bicho passa por tosas regulares, toma vacinas, banhos com xampus especiais, perfumes próprios, essas coisas. Tadinhos dos nossos inseparáveis e fiéis vira-latas, que até dormiam na cama com a gente; nunca eram tosados, tomavam banhos com água de cisternas e eram esfregados com sabão de soda!


Todo menino tinha o seu estilingue com forquilha de goiabeira ou jabuticabeira, porque eram mais resistentes. A munição leve e mais comum eram mamonas; vai ver que foi daí que surgiu a expressão “mamonas assassinas”, porque essa era a munição oficial nas “guerras dos meninos”. Todo mundo com um estilingue pendurado no pescoço e um cacho de mamonas preso à cintura. Turma contra turma, os meninos da rua de lá, contra os meninos da rua de cá. E a gente se divertia bem. Afinal, uma “mamonada” no meio da testa, até que não fazia muito estrago; no máximo, rendia um belo calombo.


Naqueles tempos, entre os meninos, havia ética até nas guerras. Quando algum pirralho mais belicoso apelava, usando bolinhas de saibro, de gude ou pedras, no lugar das mamonas, o tempo fechava, o pau quebrava. A turma se juntava contra o “espetinho” que sempre acabava levando uns belos e merecidos sopapos e croques. Guerrear podia, mas trapacear, jamais!


Cá para nós, a meninada daquele tempo viveu a vida de verdade. Isso que contei, não é nem fichinha perto das peripécias e traquinagens daqueles tempos fantásticos. A gente era feliz e sabia! Semana que vem tem mais. Até lá.



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